O mundo como um iceberg

[Este texto é parte do material de apoio da jornada Em busca da Visão – propósito pessoal a serviço de Gaia cuja versão online será lançada no começo de 2020]

“A primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la.” — Eduardo Galeano

Toda e qualquer mudança começa com a investigação das questões estruturais e dos paradigmas de pensamento mais profundos que nos fazem colocar em cena, repetidamente, os mesmos problemas.

Enquanto humanidade nós temos grandes problemas:

  • Uma pegada ecológica de 1,5 planetas;
  • 3,4 bilhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza;
  • 8 bilionários com a riqueza equivalente de 3,6 bilhões de pessoas;
  • O 1% mais abastado da população mundial equivalente à riqueza dos 99% restantes;
  • 300 milhões de pessoas acometidas por depressão;
  • 883 mil suicídios a cada ano;
  • Mais pessoas se matando do que mortas em assassinatos, guerras e desastres naturais.

Ninguém está acordando de manhã e se preparando para mais um dia de destruição da natureza, de violência contra outras pessoas e querendo aumentar seu próprio nível de infelicidade. Mas é exatamente isso que estamos fazendo.

Podemos resumir a situação atual, os sintomas do mundo, com uma frase aplicável a vários sistemas em que estamos inseridos: “Nós criamos, coletivamente, resultados que não queremos”. Por que? Quais são os padrões de comportamento, estruturas, modelos mentais e estado de consciência que nos levam a manifestar eventos tão desalinhados de nossas intenções mais profundas?

Modelo Iceberg

O modelo iceberg, uma ferramenta do pensamento sistêmico, nos ajuda a compreender a realidade de um fenômeno de forma complexa e sistêmica. Ele olha para os problemas que nos acometem a partir do entendimento dos padrões de comportamento, estruturas sistêmicas e modelos mentais que os informam.

Apenas 10% dos icebergs são visíveis acima da água. Os 90% restantes estão submersos e são invisíveis para quem olha de fora. Esse entendimento a respeito do iceberg facilita a compreensão sobre a forma como apreendemos a realidade. Diante qualquer conjuntura nós enxergamos, sem grandes esforços, apenas 10% de sua realidade sistêmica. No entanto, há mais 90% de aspectos da realidade que contribuem significativamente para o comportamento do sistema e costumam passar despercebidos.

Modelo Iceberg por Academy for Systems Change

Abaixo do nível visível dos sintomas que se manifestam na forma de eventos disruptivos, conflitos e crises, existem estruturas subjacentes e modelos mentais responsáveis ​​por criá-los. Se ignoradas essas camadas mais profundas da realidade nos limitam a encenar repetidas vezes os mesmos velhos padrões.

Eventos

“O que é invisível é mais poderoso do que o que vemos. Entender requer ver abaixo da superfície.” — Joel Glanzberg 

Em analogia ao iceberg, acima da linha da água estão os eventos. Eles tratam do que aconteceu ou do que vimos acontecer. São os fatos percebidos pelas pessoas no cotidiano e por isso funcionam como marcadores no tempo. A partir deles várias variáveis ​​podem ser observadas. 

Geralmente, gastamos nosso tempo e esforço cognitivo tentando resolver problemas complexos olhando, de forma limitada e reducionista, para os eventos. Explicar situações e tomar decisões com base em eventos isolados é o que nos faz criar os resultados que não queremos.

Promover mudanças a partir do olhar restrito aos eventos é o mesmo que reagir a uma situação tentando consertá-la. Fazemos isso quando nos defrontamos com algo que indica a necessidade de intervenção e, então, agimos rapidamente para corrigi-lo usando soluções pré-existentes que julgamos ter funcionado no passado. Esta é uma abordagem apropriada para eventos superficiais, mas negligente e perigosa quando se trata de questões sistêmicas porque ela cuida apenas dos sintomas do problema e não de suas causas subjacentes.

A analogia com o iceberg ilustra o fato de que, ao tentarmos mudar o evento sem buscar uma solução para a causa, a flutuabilidade do gelo por baixo da água o empurra para cima recriando a ponta novamente. Otto Scharmer, usando o modelo iceberg para pensar a realidade social, indica que os sintomas do mundo são as partes explícitas da realidade atual tal qual a ponta de um iceberg. Este nível de sintomas inclui uma paisagem de patologias definida pelas separações ecológica, social e espiritual. Essas três separações são como três pontas diferentes de um enorme iceberg que traduz o fracasso da civilização ocidental moderna.

Padrões de comportamento

“É importante ser capaz de ver de onde vem a mudança e entender o que a está causando. A capacidade cognitiva de “leitura para mudança” é conhecida como alfabetização de padrões. […] A capacidade de discernir os padrões ao nosso redor é a chave para honrar e trabalhar com complexidade.” — Pamela Mang e Ben Haggard

Os padrões de comportamento tratam das mudanças ou da permanência de variáveis ​ao longo do tempo. São como tendências que percebemos quando traçamos uma linha do tempo. Perceber padrões implica a observação da repetição e da conexão entre eventos. Isso faz com que os comportamentos recorrentes sejam revelados. 

Identificar padrões é importante porque indica que um evento não é um incidente isolado e, assim, nos aproxima de sua causa estrutural. Para identificá-los podemos nos perguntar: Para além deste evento isolado, o que está acontecendo neste sistema? O que está mudando? O que permanece constante e idêntico?

Ao promover mudanças no nível dos padrões de comportamento podemos antecipar e planejar eventos de modo a reagir de forma mais eficaz aos problemas. Ao perceber os padrões, construímos a capacidade de adaptação criativa aos eventos problemáticos porque somos capazes de considerar o que está fazendo com que os mesmos eventos aconteçam repetidamente.

Estrutura do sistema

“Compreender não consiste em elencar dados. Mas em ver o nexo entre eles e em detectar a estrutura invisível que os suporta. Esta não aparece. Recolhe-se num nível mais profundo. Revela-se através dos fatos. Descer até aí através dos dados e subir novamente para compreender os dados: eis o processo de todo o verdadeiro conhecimento.” — Leonardo Boff 

A estrutura de um sistema é a geradora dos padrões de comportamento. Ela informa os padrões de relacionamentos através dos quais pode ser explicado como os comportamentos são gerados. Ou seja, ela cria e influencia os padrões que vemos nos eventos.

As estruturas dizem respeito às regras, normas, políticas, diretrizes, estruturas de poder, formas de coordenação e auto-organização adotadas coletivamente. Podem ser visíveis ou invisíveis, institucionalizadas tacitamente ou implícitas no jeito das pessoas se organizarem e das informações fluírem. 

Para identificá-las devemos nos perguntar o que explica os padrões de comportamento que já podem ser observados e quais os padrões de relacionamentos que podem ser mapeados. Estruturas são tipicamente difíceis de serem percebidas, mas os padrões de comportamento observados nos dizem que elas deve estar lá mesmo quando não são evidentes. 

Se os eventos que conseguimos enxergar — crise da ecologia planetária, desigualdade social extrema e depressão generalizada — se apresentam como uma paisagem da patologia social, abaixo deles há uma estrutura invisível que dá suporte e informa os padrões de desconexão presentes na relação “eu-natureza”, “eu-outro” e “eu-eu”. 

Estruturas são compostas de relações de causa e efeito. Ao promover mudanças nas estruturas subjacentes estamos cuidando das causas-raiz dos padrões de comportamento de um sistema. Dessa forma, começamos a ver onde podemos intervir para, de fato, mudar o que está acontecendo. Deixamos de estar à mercê do sistema e somos capazes de problematizar o porquê das estruturas serem do jeito que são e caminhar em direção a intervenções eficazes no sistema.

Modelos mentais

“Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é a sua visão do mundo.” —  Leonardo Boff

Abaixo das estruturas estão os modelos mentais. Eles definem o paradigma de pensamento que, por sua vez, cria as estruturas que, então, se manifestam nos padrões dos eventos. Os modelos mentais funcionam como a lente através da qual vemos o mundo. Eles abarcam um conjunto de crenças e raciocínios profundamente arraigados que impulsionam o comportamento de todo um sistema e fazem com que as estruturas funcionem de determinada maneira. 

As crenças que constituem os modelos mentais são apreendidas subconscientemente dos grupos e meios sociais nos quais estamos inseridos. Elas estão presentes nas mentes das pessoas que criam as estruturas, das pessoas que as mantém funcionando e das pessoas que dependem dela por algum motivo.

Os modelos mentais geram o modo como a realidade é concebida. Portanto, tanto as situações não desejadas quanto a mudança intencional dos sistemas sociais são produtos de como as pessoas pensam e interagem. Ao mudar a forma de pensar e de interagir se muda os modelos mentais acerca de uma situação e, assim, abre-se espaço para novas ações direcionadas para a transformação das estruturas geradoras de um comportamento não desejado.

Modelos mentais são difíceis de identificar porque pressupõe a suspensão da lente que usamos para ver o mundo. E, comumente, associamos a maneira como vemos o mundo e as convicções que dela nascem com a nossa própria identidade. Suspender a lente é como, então, renunciar ao ego. Lamentavelmente, em um mundo que incentiva e depende do autocentramento e do individualismo das pessoas não há nenhum estímulo para a superação dos impulsos egoicos. Mas o fato é que se fôssemos bem sucedidos em trabalhar os modelos mentais faríamos nascer novas estruturas, padrões e eventos.

Tentar mudar os eventos é como cuidar reativamente dos sintomas. Tentar mudar os padrões de comportamento é como antecipar os problemas para se adaptar a eles. Tentar mudar as estruturas abre a possibilidade de redesenhar os relacionamentos entre as partes de um sistema. Tentar mudar o modelo mental de um sistema é, enfim, o que torna possível uma verdadeira transformação. 

Em sistemas complexos existem ações potenciais de alavancagem. Os pontos de alavancagem são aqueles em que pequenas mudanças geram efeitos significativos. Mudar os modelos mentais usados por um sistema é até aqui o ponto de alavancagem mais alto em direção a uma transformação que possibilite reestruturar o sistema e encontrar desfechos criativos para desafios complexos.

Se quisermos transformar a forma como a nossa sociedade responde aos seus desafios, precisamos compreender as estruturas mais profundas que condicionam nosso comportamento e mudar a forma como pensamos enquanto indivíduos e sociedade. As mudanças que são necessárias hoje requerem total comprometimento com a mudança dos nossos modelos mentais e sistemas de crença. 

Neste momento da história humana, somos desafiados a fazer a transição de uma visão de mundo reducionista e mecanicista para uma visão de mundo ecológica que reconheça e honre a interdependência dos sistemas vivos e das comunidades humanas. 

Consciência ou Fonte

“O sucesso de uma intervenção depende da condição interior do interventor”. — Bill O’Brien citado por Otto Scharmer

Mas para mudar paradigmas de pensamento e modelos mentais há que se tomar nota de uma camada ainda mais profunda que o pensamento: a própria consciência. Nós podemos assemelhá-la à noção de presença ou atenção. Se quisermos diagnosticar como opera nossa consciência precisamos tomar nota da qualidade de nossa atenção. É como estar consciente de se estar consciente ou prestar atenção em como prestamos atenção. 

Modelo Iceberg, com as contribuições de Peter Senge e Otto Scharmer, por Presencing Institute

Peter Senge e Otto Scharmer adicionaram a dimensão da “fonte” ao modelo iceberg porque uma de suas ideias centrais sobre como promover mudanças sociais é que “a forma segue a atenção ou consciência”. Portanto, a maneira mais efetiva de mudar a realidade é mudar o lugar interno a partir do qual operamos. 

Nesse sentido, o primeiro passo para promover mudanças significativas na nossa vida pessoal e no convívio social é observar “como” e “de onde” operamos. Quando perceber o nível de consciência e a qualidade de presença que somos capazes de sustentar nas situações da vida se torna um hábito, reconhecemos o profundo impacto que a atenção promove na realidade.

Referências

Peter Senge (1990). A quinta disciplina. Arte, teoria e prática da organização de aprendizagem. São Paulo: Best Seller.

Otto Scharmer (2010). Teoria U: Como liderar pela percepção e realização do futuro emergente. Rio de Janeiro: Elsevier.

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre educação e cura trabalho para a emergência de culturas regenerativas que promovam saúde pessoal e planetária.
  
 

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