Juliana Diniz

Através da conciliação entre desenvolvimento humano e social e a inteligência dos sistemas vivos, facilito processos de aprendizagem e transformação pessoal e coletiva que promovam a saúde planetária e protejam a memória biocultural da Terra.
Através da conciliação entre desenvolvimento humano e social e a inteligência dos sistemas vivos, facilito processos de aprendizagem e transformação pessoal e coletiva que promovam a saúde planetária e protejam a memória biocultural da Terra.
Apagamento de mundos

Apagamento de mundos

“Um” mundo está em crise e não “o” mundo está em crise.

O problema é que esse mundo, a civilização ocidental moderna, se globalizou às custas do apagamento de muitos mundos.

Na medida em que demonstra ser incapaz de responder aos problemas que cria — desigualdade social abissal e emergência climática, apenas para citar alguns — esse mundo é chamado a se recolher e interromper seu projeto colonizador e globalizante.

As premissas, teorias, práticas, políticas etc. deste mundo, que usamos para nos orientar nele, se mostram não só insuficientes, mas tremendamente equivocadas.

A base desse equívoco é a separação inventada entre natureza e cultura, corpo e alma, matéria e espírito, tradicional e moderno, selvagem e civilizado etc. para justificar a violência sistemática produzida pelos europeus, euro-americanos e elites latino-americanas aos corpos, vidas, territórios e sistemas de conhecimento dos povos que pretenderam escravizar e dizimar para levar adiante a fantasia ocidental do progresso civilizatório.

Os regimes econômicos exploratórios, o atentado contra os ecossistemas naturais, o cancelamento de direitos sociais e de autodeterminação dos povos, o desencantamento do mundo… são os sintomas aparentes do colapso de um modo de existir e habitar que se pretendeu universal e já há muito tempo se mostra assassino e suicida.

Outros mundos resistem e re-existem apesar do confronto colonial. E são estes mundos outros que podem nos oferecer perspectivas e direções radicalmente diferentes daquelas que nos trouxeram até aqui.

O nosso desafio está em ser capaz de dialogar a aprender com eles sem reproduzir dinâmicas coloniais transformando, por exemplo, as cosmovisões e sistemas de conhecimento indígenas e tradicionais em recursos utilitários para nossa sobrevivência.

Ou seja, nós precisamos descolonizar tanto nosso imaginário sobre o que é possível e desejável quanto a nossa forma de nos relacionar com perspectivas outras do que é possível e desejável.

Nesse processo, o primeiro passo é o reconhecimento genuíno da nossa cumplicidade nas violências sistêmicas que garantem nossos privilégios. O segundo passo é a renúncia de alguns dos nossos privilégios — aqueles associados às ideias de autoridade, legitimidade e coerência que tornam o outro insuficiente, equivocado, dispensável. O terceiro passo é alargar nossa capacidade de desaprender e estar desorientado para ser capaz de realmente aprender a se orientar de novas e antes impensáveis maneiras. O quarto passo é, depois de se lançar, sustentar esse processo, sem expectativas e garantias, consciente de que de vez em sempre se ocupará o lugar colonizador do qual se pretendia afastar.

O fio que conduz a descolonização é o da auto-implicação nos processos estruturais. O nosso compromisso deve ser o de assumir que quase tudo que aprendemos, somos e fazemos reproduz dinâmicas coloniais, e interrompê-las. Embora não nos sirva a culpa das coisas serem assim, é nossa a possibilidade e a responsabilidade em fazer diferente.

Esse compromisso pode significar a possibilidade de vivermos de maneira menos ingênua e mais dialógica, de nos relacionarmos de forma mais ampla e responsável e, quem sabe, contribuir na tessitura de um pluriverso onde caibam muitos mundos e co-existem e interagem múltiplos, diversos e complementares modos de participar da vida.


Em outubro/2021 começa o curso Decolonialidade – Perspectivas latinoamericanas. Ao longo dos próximos dois meses vamos metabolizar frustrações em relação as promessas modernas e a nossa cumplicidade nas violências que produzem nossos privilégios.

Posted by Juliana Diniz in Texto rápido, 0 comments
Controvérsias sobre a ideia de desenvolvimento

Controvérsias sobre a ideia de desenvolvimento

A partir das críticas ao desenvolvimento econômico e desenvolvimento sustentável feitas pelas abordagens do decrescimento, do pós-desenvolvimento e do bem viver, o texto problematiza o entendimento economicista de desenvolvimento e apresenta uma outra perspectiva para este conceito à luz da natureza de desenvolvimento presente em sistemas vivos.

Em uma perspectiva genérica, desenvolvimento econômico é o processo pelo qual ocorre uma variação positiva tanto das variáveis quantitativas quanto das variáveis qualitativas da economia.

Por variáveis quantitativas entenda o aumento da capacidade produtiva de uma economia medida por indicadores como o PIB — isso é o mesmo que crescimento econômico. Por variáveis qualitativas entenda as melhorias na qualidade de vida, educação, saúde, infraestrutura e mudanças da estrutura socioeconômica de uma região medidas por indicadores sociais como o IDH. Essa dimensão qualitativa da economia é o que adiciona o aspecto de desenvolvimento ao crescimento econômico.

Desde a década de 1970, o conceito de desenvolvimento vem sendo reformulado com a intenção de produzir mudanças nos regimes econômicos sem esgarçar a direção de uma sociedade global de crescimento industrial. A noção de desenvolvimento sustentável faz parte da ressignificação de um projeto civilizatório cujas bases cosmológicas, ocidentais e modernas, não foram revisadas. Continue reading →

Posted by Juliana Diniz in Artigo, 0 comments

A essência não está dada

Coevolução newsletter #13

Essência é um conceito antigo usado para alegar que cada ser tem qualidades que o fazem único, singular, específico. Ben Haggard (2017) diz que a qualidade que faz algo distintivo é exatamente o que deve ser entendido como essência. Carol Sanford (2020) define essência como o cerne irredutível de algo, o que o torna singularmente ele mesmo. Pamela Mang e Ben Haggard (2016, p. 48) trazem que a essência é “a verdadeira natureza ou caráter distintivo que torna algo o que é; o elemento permanente versus o acidental do ser”.

Eles também dizem que a distintividade é uma característica dos sistemas vivos, ou seja, cada sistema vivo é distinto um do outro e expressa uma essência que é a fonte de sua singularidade. Assumir a essência como um princípio fundamental de sistemas vivos é imprescindível porque o potencial regenerativo de sistemas vivos surge desse aspecto central distinto não importando se é uma árvore ou uma floresta, uma pessoa ou uma cidade (Mang e Haggard, 2016). Continue reading →

Posted by Juliana Diniz in Coevolução newsletter, 0 comments

Compreensão de padrões, compreensão da vida

Coevolução newsletter #12

O poder do entendimento dos sistemas vivos está em nos ensinar a ver padrões que se repetem e, desse modo, conseguir trabalhar efetivamente em meios e escalas muito diferentes.

É isso que Joel Glanzberg, do grupo Regenesis, demonstra quando diz que os padrões de troca que acontecem em nossos corpos são semelhantes aos de uma árvore, bacia hidrográfica, ecossistema ou economia. Assim, ao compreender os padrões de funcionamento de um desses sistemas, começamos a entender como todos eles funcionam. Continue reading →

Posted by Juliana Diniz in Coevolução newsletter, 0 comments

Auto-observação e auto-lembrança

Coevolução newsletter #8

Em uma de suas aulas sobre design informado por sistemas integrais e sistemas vivos, Bill Reed disse que a nossa existência se dá de três maneiras: automática, reativa ou intencional. Para a triste surpresa dos ouvintes, ele disse que “mesmo os grandes místicos foram intencionais e propositivos apenas 20% de suas vidas”.

O porquê dele falar sobre isso em uma aula sobre regeneração se deve ao fato de que sem intencionalidade e revisão de propósito não é possível construir uma mente que percebe como os padrões de vida se expressam nos encontros, projetos e paisagens e, assim, tampouco é possível regenerar a vida e os significados destes contextos.

Para uma aproximação da prática regenerativa, junto à alfabetização em como totalidades e sistemas vivos funcionam, é preciso estar em dia com a prática de perceber como se percebe, suspender padrões automáticos de pensamento e remodelar o próprio estado de ser. O Regenesis chamou essa prática de auto-observação e auto-lembrança. Continue reading →

Posted by Juliana Diniz in Coevolução newsletter, 0 comments

#22 Enfrentando os vícios da modernidade em direção a futuros decoloniais I com Camilla e Dino

Ouça no seu app favorito.

Neste episódio conversamos com a Camilla Cardoso e o Dino Siwek do projeto Terra Adentro e do coletivo Gestos Rumo a Futuros Decolonias. Nós convidamos para a conversa o grupo de estudo que eles estão conduzindo enquanto formação na pegagogia do GRFD e a comunidade de aprendizagem do IDR.

Terra Adentro é um projeto de investigação sobre as motivações e efeitos das crises sistêmicas que vivemos, buscando apontar para outras possibilidades de se viver e interagir no mundo.

A abordagem que informa o trabalho do coletivo GRFD envolve práticas pedagógicas e experimentos artísticos que visam estimular formas de viver capazes de nos engajar, ao invés de negar, com violências sistêmicas, com nossos entrelaçamentos e cumplicidade em danos e com os limites do planeta.

Nós conversamos sobre as origens e efeitos da modernidade-colonialidade, sobre vícios coloniais conscientes e inconscientes, sobre os radares que podemos utilizar para perceber a atuação desses vícios enquanto agimos, sobre a potência de abordagens e teorias de mudança não-prescritivas que incorporam capacidades exiladas pelo modo de ser moderno. E muito mais.

Eles trouxeram imagens, reflexões e convites presentes em muitas das cartografias elaboradas pelo GRFD e ressaltaram a importância de oferecer cuidados paliativos para um mundo em desmoronamento desinvestindo nas promessas da modernidade e investindo no reconhecimento visceralmente responsável das nossas cumplicidades em relação às violências sistêmicas.

Posted by Juliana Diniz in Podcast, 0 comments

As cinco dimensões da prática regenerativa

Coevolução newsletter #7

O que faz com que um projeto, empresa ou o comportamento de uma liderança seja melhor qualificado como regenerativo do que como sustentável, ecológico ou humano?

Esta não é uma pergunta simples, mas podemos dizer que a prática regenerativa está orientada para a transformação sistêmica. Essa direção faz com que o praticante precise ampliar o seu escopo de atuação para incluir aspectos que comumente não são considerados.

O Clear (Center for Living Environments and Regeneration), informado pelo trabalho do Regenesis e da Carol Sanford, sistematizou cinco dimensões de prática com as quais precisamos estar envolvidos para tornar e manter regenerativo o nosso trabalho. São elas: Continue reading →

Posted by Juliana Diniz in Coevolução newsletter, 0 comments

Olhar dentro

Coevolução newsletter #6

A atenção ao lugar interno a partir do qual operamos é essencial para o desenvolvimento humano e é um pilar para o trabalho de design regenerativo. 

O desenho e a condução de projetos, processos e comunidades são influenciados diretamente pela qualidade da presença do facilitador. 

Quando o lugar de poder é externo, a realização ou a insatisfação pessoal ou o sucesso de um projeto estão condicionados às circunstâncias além do nosso controle e poder. Nesse sentido, o acaso, as estruturas sistêmicas e os comportamentos alheios costumam ser justificativas que damos para quando as coisas caminham na direção contrária daquela que gostaríamos. Continue reading →

Posted by Juliana Diniz in Coevolução newsletter, 0 comments

#21 Evolução, pensamento sistêmico e desenvolvimento regenerativo

Ouça no seu app favorito.

Esse episódio é uma edição da conversa que eu fiz com a Comunidade de Aprendizagem do Trabalho Que Reconecta anfitriada pelas queridas Polliana Zocche e Lia Beltrão.

No momento em que elas me convidaram, a comunidade estava trabalhando a fase ver com novos da espiral do Trabalho Que Reconecta. Ver com novos olhos sucede as fases de acordar a gratidão e honrar a dor, e depois dela é o momento de seguir adiante. Joanna Macy destaca o papel do pensamento sistêmico em ampliar nossas perspectivas sobre o que acontece ao nosso mundo e como responder apropriadamente a isso.

A fim de trazer uma nova visão, ou levar novos olhos ao mundo, eu apresentei o processo evolucionário cósmico como uma história com força mítica o suficiente para confrontar a narrativa de um paraíso científico-tecnológico-industrial que se pretende capaz de superar os aspectos complexo, ambíguo e impermanente da vida.

Evolução, emergência, sinergia foram alguns dos tópicos da primeira parte da conversa. Na segunda parte eu trouxe reflexões sobre como nós, através de nossos projetos, podemos facilitar a emergência de propriedades sistêmicas geradoras de saúde e resiliência nos lugares onde estamos.

Posted by Juliana Diniz in Podcast, 0 comments

Regenerar de dentro para fora

Coevolução newsletter #5

Neste email apresento alguns dos pontos-chave da próxima trilha de aprendizagem da nossa comunidade online, Atributos da liderança regenerativa.

Ela incorpora a premissa de que o trabalho regenerativo requer mais que um conjunto de habilidades ou competência técnica. O componente essencial desse trabalho é o desenvolvimento interior que ocorre enquanto fazemos nosso trabalho no mundo.

A regeneração de um sistema requer foco duplo no que podemos chamar de trabalho interno e trabalho externo do praticante regenerativo. Levando isso a sério, essa trilha nos ajudará a construir capacidades necessárias para assumir a tarefa altamente negligenciada de trabalhar regenerativamente de dentro para fora. Continue reading →

Posted by Juliana Diniz in Coevolução newsletter, 0 comments