Fenomenologia e Desenvolvimento Regenerativo

 

Na próxima segunda nos encontramos com a comunidade do Círculo Regenerativo para trabalhar a fenomenologia aplicada ao desenvolvimento territorial e à regeneração dos lugares.

Desde que conhecemos a abordagem do Desenvolvimento e Design Regenerativo percebemos — e nos foi dito — que ela tem um fundamento fenomenológico, embora essa relação não esteja totalmente explícita nos materiais e diálogos que já tivemos com o grupo Regenesis, os precursores da metodologia. Então, resolvemos nós destrinchar a conexão entre essas duas abordagens que nos parecem tão próximas e complementares. Neste encontro queremos compartilhar o que estamos descobrindo com essa pesquisa.

De antemão, podemos dizer que ambas compartilham de uma visão de mundo que tem na sua base o interesse genuíno pelo modo como se comportam fenômenos vivos. Do ponto de vista prático, ambas oferecem processos e métodos capazes de criar um processo consensual de design baseado em princípios de funcionamento da vida como os de holismo/integralidade, evolução/desenvolvimento, essência/singularidade, complexidade, emergência etc.

No coração do DDR está a compreensão de que lugares são sistemas vivos e que, para regenerá-los, precisamos descobrir o fenômeno adequado no qual intervir em cada contexto a fim de gerar efeitos sistêmicos no território. Essa descoberta começa investigando que lugar é esse, qual a sua relação com os sistemas maiores a que pertence, qual a sua essência, potencial e vocação singular, como se deu a sua trajetória evolutiva, a fim de, quem sabe, tocar o ser ou espírito do lugar.

Quando isso acontece podemos definir pontos de intervenção e executar estratégias para o desenvolvimento e a regeneração do lugar com o alívio de não estarmos reproduzindo padrões homogeneizantes, genéricos ou coloniais. É uma tarefa nada fácil já que lugares são sistemas altamente complexos e a sua investigação perpassa a sua história singular geofísica, ecológica, antropológica e socioeconômica. É na sobreposição dos padrões ecológicos e sociais que encontramos os gestos essenciais que comunicam quem é esse lugar e quem ele busca se tornar em resposta às mudanças que atravessa.

No encontro da segunda (26/09, 19h) iremos fazer alguns exercícios juntos a partir da nossa relação com um lugar que escolhemos como contexto para experimentar uma atitude fenomenológica, e aprofundaremos nas convergências entre a fenomenologia de Goethe para a leitura de paisagem e a metodologia criada pelo grupo Regenesis — Story of Place — para investigar os lugares e informar diretrizes de design para projetos de desenvolvimento territorial.

Através da pequena seleção de citações abaixo, do artigo Reading Nature as a Text – Goethe’s Science Today de Margaret Colquhoun e do Grupo Regenesis (livro e site), você vai ter um gostinho das sinergias entre a abordagem goetheana e o desenvolvimento regenerativo.

 

De Margaret Colquhoun:

“Como podemos viver nesta paisagem hoje? Como podemos trazer vida, cuidado e desenvolvimento responsáveis para um lugar na fronteira de duas regiões de paisagens tão diversas? Como ouvir a terra, tentar ouvir sua voz, quem ela realmente é e deixar que ela compartilhe conosco algo de sua história? Isso pode nos dar uma pista de como ajudá-la a crescer em seu próprio futuro de uma maneira que case com a melhor das intenções humanas para uma ação ecológica sustentável, com o que a própria terra está tentando se tornar?”

“Usando o método científico de Goethe como base de um processo consensual de design chegamos à criação de novas construções ecológicas e à transformação de um terreno negligenciado.”

“Em nossos exercícios buscamos, por meio de um estudo cuidadoso e metodologicamente sequencial, abordar os fenômenos físicos acessíveis através de diferentes níveis da experiência humana a fim de obter alguma visão do ser espiritual do lugar, ou seja, aproximar-nos do que é comumente conhecido como Genius Loci.”

 

Do Regenesis:

“Quando a essência de um lugar é articulada de forma clara e concreta, torna-se possível projetar, desenvolver e planejar o futuro em um nível totalmente novo.”

“A metodologia do desenvolvimento regenerativo fornece uma abordagem coerente para estabelecer parcerias coevolucionárias com a natureza que nos permite buscar a sustentabilidade a partir da estrutura conceitual de sistemas vivos e em evolução.”

“O desenvolvimento regenerativo funciona na interseção da compreensão e da intenção. Ele fornece uma estrutura conceitual integrada que permite que as comunidades desenvolvam uma compreensão compartilhada de si mesmas e dos lugares onde vivem e trabalham. Em seguida, constrói a vontade política e as capacidades de pensamento sistêmico que são necessárias para projetar e criar novas maneiras de viver em harmonia com esses sistemas vivos. Igualmente importante – e é isso que torna o desenvolvimento regenerativo único – ele trabalha para criar campos de cuidado e compromisso entre as partes interessadas e gestores.

 


Segunda, 26/09 às 19h, no Círculo Regenerativo

Estamos animados com a oportunidade de colocar essas duas perspectivas que nos são tão caras em diálogo e assim ampliar nosso entendimento a respeito de como lidar com as mudanças — e como promover mudanças intencionais em uma direção regenerativa — nos lugares de que queremos cuidar.

Junte-se ao Círculo para participar deste e dos demais encontro do ciclo de Fenomenologia aplicada.

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Vamos praticar? (convite para ampliar a percepção)

Foto: Mauro Moura

No fim do último email que enviamos na newsletter havia um “convite para aumentar a percepção”. O texto do email abordava a relação entre saúde, liberdade e autoconsciência a partir da perspectiva antroposófica e fazia um convite para a tomada de consciência a respeito do que pode estar sendo dito por uma situação que nos toca e provoca.

Com esse email quero reforçar o convite feito e indicar alguns movimentos de um modo de observar fenomenologicamente eventos cotidianos. O que segue aqui é uma derivação para observar fenômenos humanos e sociais a partir da metodologia de observação de fenômenos naturais de Goethe. Continue reading →

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Saúde, liberdade e autoconsciência (e fenomenologia)

Foto: Ahmad Odeh

 

“A nossa mais elevada tarefa deve ser a de formar seres humanos livres que sejam capazes de, por si mesmos, encontrar propósito e direção para suas vidas.” — Rudolf Steiner

Essa é uma célebre frase de Rudolf Steiner que traduz sua filosofia da liberdade.

Para a Antroposofia, ciência espiritual iniciada por Steiner, é de extrema importância que os seres humanos se desenvolvam através da (e em direção à) liberdade, e que todo o processo de desenvolvimento humano facilitado pelos pais, educadores e demais profissionais da área contribua para isso.

Realizar um Eu livre no mundo significa experienciar o amadurecimento biológico, psicológico e espiritual sendo capaz de transformar os desafios biográficos de forma autêntica por um Eu que traz consigo uma vocação singular e se manifesta por meio da autoconsciência.

Nesse sentido, liberdade tem a ver com a atuação comprometida deste Eu na metaformose daquilo que constitui o indivíduo mas que, de alguma forma, impede a expressão autêntica da sua individualidade. Vamos aprofundar nisso. Continue reading →

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É sobre uma postura, mais do que uma teoria

Foto: Erik Karits

De modo geral, a fenomenologia é o estudo dos fenômenos; e fenômeno é aquilo que se apresenta à consciência humana. Desdobrando essas definições, temos que a fenomenologia é o estudo da atuação da consciência na relação com o que se apresenta a ela.

Com raízes no pensamento filosófico, ela é considerada uma metodologia que enfatiza a importância da ideia de fenômeno ao considerar que tudo que podemos saber do mundo e de nós mesmos resume-se a esses fenômenos.

Edmund Husserl, considerado o pai da fenomenologia, tomou como premissa a ideia de que “toda consciência é uma consciência de algo”. Isso quer dizer que o que aparece à consciência aparece não de forma abstrata, mas em uma relação entre o sujeito que conhece e aquilo que é conhecido.

Aqui, diferente de outras perspectivas filosóficas, não se trata de uma consciência assimiladora e acumuladora, e sim de uma consciência intencional e de um processo relacional de tomada de consciência. Nesse sentido, não há como separar sujeito e objeto, interioridade de exterioridade. A ideia de fenômeno os integra; o que acessamos na consciência é a integração deles (o próprio fenômeno). Continue reading →

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Prática regenerativa e atitude fenomenológica

Foto: Raimond Klavins

Para ser efetivo, o impulso de regenerar ou promover mudanças em um sistema de qualquer natureza deve estar associado ao interesse de verdadeiramente conhecê-lo. Não é possível intervir adequadamente em algo que se conhece superficialmente.

Mas é isso que costumamos fazer. Nos faltam capacidades e conhecimento de base que nos elevem além do hábito de concluir precipitadamente e impor soluções baseadas em agilidade, eficiência, replicabilidade. Então, sem o envolvimento adequado com aquilo que se deve conhecer antes de intervir, reforçamos os padrões mecânicos e artificiais responsáveis pela perda de saúde e vitalidade nos sistemas à nossa volta.

Consciente dessa tendência e preocupada com os seus efeitos, a prática regenerativa é informada por um conjunto de premissas de outra natureza que vieram do entendimento de como funcionam sistemas vivos em evolução. Continue reading →

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Uma questão de escala

Foto: Felipe Dias

Muitos dos nossos esforços para mudanças significativas são inefetivos por conta da escala em que atuamos.

Helena Norberg-Hodge, diretora do Local Futures, disse recentemente que “vivendo fora da escala humana somos incapazes de ver a confusão em que nos metemos”.

Os problemas que enfrentamos, como a crise climática e a polarização política, se tornaram tão grandes e complexos que não conseguimos ver com clareza como contribuímos para o seu agravamento ou dissolução.

Diante do reconhecimento de que eles são imensos, buscamos uma grande solução sem perceber que buscar uma grande resposta ou uma solução universal é parte do problema — na realidade, é o próprio problema.

Nenhum de nós será capaz de oferecer respostas para o problema como um todo porque somos incapazes de fazer sentido de tamanha complexidade. Mas todos nós podemos trabalhar localmente fazendo coisas que podem parecer pequenas, mas são promissoras. Continue reading →

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Infundir germens de bem em um mundo decadente

Foto: Jordan White

Allan Kaplan, retomando um pensamento de Rudolf Steiner, diz que “não devemos tentar interromper um processo de destruição ou decadência porque ele tem seu próprio curso, mas infundir nele germes do que consideramos como bem”.

Algo semelhante pode ser visto na dinâmica ecológica de uma horta ou agrofloresta. Quando uma planta apresenta traços de baixa vitalidade ou senescência (envelhecimento), mais do que tentar adiar seu fim e restaurar sua vitalidade com insumos externos, é interessante acelerar seu processo de morte. Uma prática fundamental no manejo agroecológico é retirar espécies antigas e fracas para abrir espaço para novas mudas e sementes crescerem com vigor.

Toda ruína é acompanhada de novas possibilidades do que pode vir a acontecer e de um potencial singular correspondente aos aspectos da identidade de um dado sistema que, nessa virada, podem vir a se atualizar. Continue reading →

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Artigo na edição temática sobre sustentabilidade da revista Política Democrática

Fomos convidados pela Fundação Astrojildo Pereira a escrever um artigo para a revista Política Democrática na sua edição temática sobre sustentabilidade.

O nosso artigo, Do reducionismo ao holismo: As limitações da sustentabilidade e a regeneração como abordagem integral, trata da mudança de pensamento, interesse e escopo de atuação sugerida pelo paradigma regenerativo.

Mesmo com o mundo inteiro adepto a painéis solares, carros elétricos, prédios verdes e outras tecnologias sustentáveis, isso não significaria a sustentação da vida. Para cuidar da vida é preciso mais do que coisas e técnicas.

A vida não existe de forma genérica. Ela acontece de forma particular em cada localidade. Cada lugar expressa diferentes padrões sociais e ecológicos. Por isso, como aprofundado no artigo, o trabalho regenerativo é sobre o engajamento de um pensamento vivo, integral e evolutivo que enxerga e coopera com os padrões de vida presentes em um lugar a fim de contribuir para a realização da sua vocação singular e expressão de maiores ordens de vitalidade, viabilidade e capacidade para evolução.

A revista conta com diversos outros artigos que abordam questões relacionadas a mudanças climáticas, Amazônia, governança ambiental, utopia e transição, ativismo ambiental dos jovens e mais.

Você pode adquirir a versão impressa da revista na loja virtual da FAP ou baixar gratuitamente a versão online.

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Apagamento de mundos

Apagamento de mundos

“Um” mundo está em crise e não “o” mundo está em crise.

O problema é que esse mundo, a civilização ocidental moderna, se globalizou às custas do apagamento de muitos mundos.

Na medida em que demonstra ser incapaz de responder aos problemas que cria — desigualdade social abissal e emergência climática, apenas para citar alguns — esse mundo é chamado a se recolher e interromper seu projeto colonizador e globalizante.

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Controvérsias sobre a ideia de desenvolvimento

Controvérsias sobre a ideia de desenvolvimento

A partir das críticas ao desenvolvimento econômico e desenvolvimento sustentável feitas pelas abordagens do decrescimento, do pós-desenvolvimento e do bem viver, o texto problematiza o entendimento economicista de desenvolvimento e apresenta uma outra perspectiva para este conceito à luz da natureza de desenvolvimento presente em sistemas vivos.

Em uma perspectiva genérica, desenvolvimento econômico é o processo pelo qual ocorre uma variação positiva tanto das variáveis quantitativas quanto das variáveis qualitativas da economia.

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