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Apagamento de mundos

Apagamento de mundos

“Um” mundo está em crise e não “o” mundo está em crise.

O problema é que esse mundo, a civilização ocidental moderna, se globalizou às custas do apagamento de muitos mundos.

Na medida em que demonstra ser incapaz de responder aos problemas que cria — desigualdade social abissal e emergência climática, apenas para citar alguns — esse mundo é chamado a se recolher e interromper seu projeto colonizador e globalizante.

As premissas, teorias, práticas, políticas etc. deste mundo, que usamos para nos orientar nele, se mostram não só insuficientes, mas tremendamente equivocadas.

A base desse equívoco é a separação inventada entre natureza e cultura, corpo e alma, matéria e espírito, tradicional e moderno, selvagem e civilizado etc. para justificar a violência sistemática produzida pelos europeus, euro-americanos e elites latino-americanas aos corpos, vidas, territórios e sistemas de conhecimento dos povos que pretenderam escravizar e dizimar para levar adiante a fantasia ocidental do progresso civilizatório.

Os regimes econômicos exploratórios, o atentado contra os ecossistemas naturais, o cancelamento de direitos sociais e de autodeterminação dos povos, o desencantamento do mundo… são os sintomas aparentes do colapso de um modo de existir e habitar que se pretendeu universal e já há muito tempo se mostra assassino e suicida.

Outros mundos resistem e re-existem apesar do confronto colonial. E são estes mundos outros que podem nos oferecer perspectivas e direções radicalmente diferentes daquelas que nos trouxeram até aqui.

O nosso desafio está em ser capaz de dialogar a aprender com eles sem reproduzir dinâmicas coloniais transformando, por exemplo, as cosmovisões e sistemas de conhecimento indígenas e tradicionais em recursos utilitários para nossa sobrevivência.

Ou seja, nós precisamos descolonizar tanto nosso imaginário sobre o que é possível e desejável quanto a nossa forma de nos relacionar com perspectivas outras do que é possível e desejável.

Nesse processo, o primeiro passo é o reconhecimento genuíno da nossa cumplicidade nas violências sistêmicas que garantem nossos privilégios. O segundo passo é a renúncia de alguns dos nossos privilégios — aqueles associados às ideias de autoridade, legitimidade e coerência que tornam o outro insuficiente, equivocado, dispensável. O terceiro passo é alargar nossa capacidade de desaprender e estar desorientado para ser capaz de realmente aprender a se orientar de novas e antes impensáveis maneiras. O quarto passo é, depois de se lançar, sustentar esse processo, sem expectativas e garantias, consciente de que de vez em sempre se ocupará o lugar colonizador do qual se pretendia afastar.

O fio que conduz a descolonização é o da auto-implicação nos processos estruturais. O nosso compromisso deve ser o de assumir que quase tudo que aprendemos, somos e fazemos reproduz dinâmicas coloniais, e interrompê-las. Embora não nos sirva a culpa das coisas serem assim, é nossa a possibilidade e a responsabilidade em fazer diferente.

Esse compromisso pode significar a possibilidade de vivermos de maneira menos ingênua e mais dialógica, de nos relacionarmos de forma mais ampla e responsável e, quem sabe, contribuir na tessitura de um pluriverso onde caibam muitos mundos e co-existem e interagem múltiplos, diversos e complementares modos de participar da vida.


Em outubro/2021 começa o curso Decolonialidade – Perspectivas latinoamericanas. Ao longo dos próximos dois meses vamos metabolizar frustrações em relação as promessas modernas e a nossa cumplicidade nas violências que produzem nossos privilégios.

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Princípios orientadores

Os princípios descritos abaixo orientam a forma como queremos atravessar o ano de 2021 e anfitriar o Círculo Regenerativo, nossa comunidade de aprendizagem.

Um ciclo que se inicia é uma oportunidade de alinhamento das nossas ações com aquelas intenções que, a menos que sejam firmadas, nos escapam no cotidiano. Esclarecer para nós mesmos princípios orientadores tem um poder organizativo e cuida para que sigamos em uma direção de maior potencial.

O Círculo é resultado do desabrochar das nossas percepções acerca do que significa desenvolvimento, aprendizagem e comunidade. Os princípios abaixo sugerem uma ética de conexão com a vida e de realização humana que informa como queremos conduzir o Círculo e participar do mundo. Continue reading →

Posted by Juliana Diniz in Texto rápido, 0 comments
O que faz uma comunidade vibrante e próspera?

O que faz uma comunidade vibrante e próspera?

Na primeira investigação coletiva que tivemos no Círculo Regenerativo, a nossa comunidade de prática online, nos perguntamos: O que faz uma comunidade vibrante?

Foi muito bonito estar em um espaço com uma riqueza enorme de perspectivas e experiências de vida. Ficou claro a potência de nos juntarmos para refletirmos sobre coisas que importam.

Neste texto eu trago os aprendizados que tive a partir das reflexões das pessoas presentes no encontro.

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Posted by Felipe Tavares in Texto rápido, 1 comment

O avanço do paradigma regenerativo

A regeneração — em sua multiplicidade — está florescendo e ganhando importância em um ritmo muito mais acelerado do que poderíamos prever.

Alguns sinais nos mostram que a narrativa regenerativa quebrou barreiras culturais significativas e continua despertando o interesse em diferentes espaços.

A publicação do livro Design de culturas regenerativas em 2019 pela Editora Bambual e sua rápida aceitação pelo público ampliou consideravelmente o alcance do movimento no Brasil.

A discussão cresceu impulsionada por entusiastas como nós do IDR que publicamos mais de 120 artigos, textos rápidos e podcasts; pelo grupo Design Regenerativo no facebook idealizado pela Flavia Vivacka com quase três mil membros; pelas excelentes comunicadoras do Futuro Possível e mais e mais ativadores que chegam a cada dia.

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Posted by Felipe Tavares in Texto rápido, 2 comments
Senciência, inteligência e agência

Senciência, inteligência e agência

O amadurecimento humano sentido uma expressão cada vez mais potente da própria humanidade implica o desenvolvimento contínuo e harmônico de três naturezas distintas de capacidades — senciência, inteligência e agência pessoal.

Senciência diz respeito à percepção ampliada do entorno e à autopercepção consciente. É sobre perceber e sentir o mundo — inclusive o mundo interno próprio e o mundo interno de outras pessoas — com os sentidos físicos e sutis. Inclui qualidades como atenção plena e calma interior, escuta profunda e observação aberta, sensibilidade e cuidado, empatia e compaixão.  Continue reading →

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Autotransformação a serviço da transformação sistêmica

Autotransformação a serviço da transformação sistêmica

Uma das intenções do praticante regenerativo é a de “tornar-se um atualizador de sistemas” — engajar o trabalho de desenvolvimento pessoal a serviço da transformação sistêmica. 

Esse princípio nos orienta na busca por uma participação apropriada em nossos contextos e traz importantes insights sobre onde buscar sentido e propósito. Continue reading →

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A maior riqueza humana

A maior riqueza humana

A maior riqueza humana é pertencer a uma comunidade vibrante e amorosa.

Uma comunidade é um grupo de pessoas que se preocupam genuinamente com o bem estar uns dos outros.

É uma oportunidade para praticar o cuidado desinteressado e enxergar no outro os seus próprios desajustes.

É um espaço de crescimento e autorrealização, de regozijo e do trabalho árduo de diluir o ego-vivente.

Estar em comunidade é um privilégio e uma penitência.

É um círculo de fortalecimento dos seus valores e de experimentação da sua própria fragilidade.

É um exercício de apoio mútuo e uma prática de expansão das nossas capacidades sensoriais.

Uma comunidade vibrante e amorosa é uma oportunidade para sermos humanos juntos de um jeito diferente.

É a prática do nosso ser relacional.

É uma oportunidade para interser.

Foto: Rita Vicari

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Aprender diferente

Aprender diferente

E se os instantes antes de entrar em um espaço de aprendizagem forem parecidos com os de adentrar um templo ou uma bela paisagem?

E se a qualidade mental que nós levarmos para aprender for de calma, abertura e humor?

E se as relações estabelecidas em um espaço de convivência forem de gentileza, confiança, incentivo e apoio mútuo? Continue reading →

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Inconsciente criativo

Inconsciente criativo

A criatividade tem uma relação íntima com o inconsciente.

Rollo May, no livro A coragem de criar, diz que não há o inconsciente em si, mas dimensões subconscientes e pré-conscientes da experiência. Nessas dimensões reside o potencial de conhecimento e de ação que a pessoa desconhece. Esse potencial é a fonte da criatividade.  Continue reading →

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Criatividade

Criatividade

O processo criativo envolve a reconciliação de muitos paradoxos: ação e espera, controle e renúncia, comprometimento total e ausência de esforço, tomada súbita de consciência e suavidade no fazer. A criatividade é a ação através da inação. Não é o ato de fazer em si, mas de permitir que algo ocorra por intermédio. É sustentar um estado relaxado e receptivo, e ser passagem. Continue reading →

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