A separação espiritual ou psicológica

[Este texto é parte do material de apoio da jornada Em busca da Visão – propósito pessoal a serviço de Gaia cuja versão online será lançada no começo de 2020]

Por todo o mundo as pessoas concordam que a civilização moderna está falida e que enfrentamos enormes desafios que nos exigem uma profunda mudança pessoal e social. Provavelmente não concordamos em relação às soluções, mas concordamos sobre os problemas. Podemos resumir os problemas do mundo em três cenários: a separação ecológica, a separação social e a separação espiritual ou psicológica¹.

A separação espiritual ou psicológica

Enquanto a separação ecológica trata da desconexão entre o “eu” e a “natureza” e a separação social da desconexão entre o “eu” e o “outro”, a separação espiritual ou psicológica diz respeito à desconexão entre o “eu” e o “Eu” — entre quem eu sou hoje e quem eu posso ser amanhã. O “eu” representa também o nosso “eu limitado” enquanto o “Eu” trata do “eu potencial”. 

A desconexão entre esses dois “eus” resulta na intensificação de sintomas de stress, esgotamento, ansiedade, depressão e até risco de suicídio. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a depressão é um transtorno comum em todo o mundo atingindo mais de 300 milhões de pessoas pelo globo. Diferente de uma tristeza transitória, ela é uma doença psiquiátrica crônica e recorrente caracterizada por alteração de humor associada a sentimentos de amargura, desencanto, desesperança, baixa autoestima e culpa. 

O contexto generalizado de depressão, sintomático da crescente lacuna entre o que fazemos e quem realmente somos, é a causa por trás do número alarmante de tentativas de autoextermínio. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, a cada ano e em todo o mundo, 883 mil pessoas se matam enquanto 669 mil pessoas são vítimas de assassinatos, guerras ou desastres naturais. Isso significa que apesar de toda a violência acontecendo no planeta, mais pessoas se matam do que são mortas por outros e por quaisquer circunstâncias externas.

O número de suicídios aumentou na mesma medida em que a humanidade se urbanizou. De acordo com um estudo da Universidade de Oxford sobre os efeitos das crises econômicas, o número global de casos de suicídio cresceu 60% desde a década de 1970. Em 2010, pela primeira vez na história, a maioria da humanidade passou a viver em cidades. Habitar grandes centros urbanos significa estar mais vulnerável ao stress, às exigências de sucesso e à solidão porque a vida urbana impõe necessidades difíceis de serem realizadas ao mesmo tempo em que fragiliza os laços sociais. 

O resultado é a criação de uma massa de sujeitos que se sentem insatisfeitos, insuficientes, inadequados e fracassados. Apesar de ter uma dimensão particular que diz respeito à biografia de cada indivíduo, a depressão se tornou uma questão social. Por trás dos seus sintomas podemos encontrar causas compartilhadas pelas pessoas em todo o mundo.

Hoje, o sistema educacional e o mercado de trabalho fazem com que as pessoas assumam para si o papel de serem peças da engrenagem de uma sociedade de crescimento industrial. Eles apresentam possibilidades pré-determinadas de quem podemos ser e do que devemos fazer. Na medida em que nossas individualidades e vocações pessoais vão sendo abafadas, a vida vai ficando sem sentido.

Todos nós nascemos com uma vocação. Ao longo da vida lapidamos talentos e desenvolvemos uma inclinação particular para transformar ou inovar algum setor da vida humana. No entanto, através da educação formal e inserção no mercado de trabalho, nossa vocação é sufocada, nossos talentos subutilizados e nossa paixão pela transformação do mundo ridicularizada. O resultado é o auto-abandono e o isolamento frente ao mundo.

O diagnóstico de depressão e os sentimentos associados de desencaixe, falta de sentido e tristeza sem causa estão associados a um isolamento inevitável. As pessoas não conseguem mais se relacionar com o mundo. Elas fazem as coisas porque estão no automático. Não existe entusiasmo em estar no mundo porque há um sentimento de separação, não pertencimento e inutilidade. Daí surge o sentimento de fracasso, de não ser bom o suficiente e de “não ter dado certo” na vida.

Esses sintomas são o que todos nós sentimos quando somos incapazes ou impedidos de realizar nossa vocação e de servir ao mundo através dos nossos sonhos e competências. Se não podemos ser nós mesmos, servir à Terra com nossos dons e talentos e nos sentirmos capazes de transformar a ordem do mundo, a vida fica esvaziada de sentido e a apatia toma conta de nossos dias.

Mas nós estamos aqui para desabafar nossas vocações, evidenciar nossos dons e recobrar nosso poder de transformação à medida que nossos sonhos se tornam projetos para nossa vida e para o meio que nos envolve. Estamos encarnados neste tempo-espaço em uma busca pela visão enquanto legítimos agentes de transformação. Merecemos encontrar a nossa porta de entrada para promover as inovações transformativas que Gaia nos pede. 

_

A jornada Em busca da Visão – propósito pessoal a serviço de Gaia tem como propósito conduzir pessoas como você, sensível às dores do mundo, ao engajamento profundo e concreto na grande virada de uma sociedade de crescimento industrial para uma sociedade que sustenta e impulsiona a vida. 

Notas

¹ O entendimento destas três separações enquanto síntese do status do mundo é parte da Teoria U, um método para gerenciar mudanças e inovação social, encabeçado por Otto Scharmer, professor senior no Massachusetts Institute of Technology.

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre educação e cura trabalho para a emergência de culturas regenerativas que promovam saúde pessoal e planetária.
  
 

Deixe uma resposta