A insustentabilidade da civilização moderna - um convite ao diálogo com outras visões de mundo - instituto de desenvolvimento regenerativo

A insustentabilidade da civilização moderna — um convite ao diálogo com outras visões de mundo

A descolonização do pensamento é o primeiro passo para a superação das crises que a civilização moderna enfrenta

É consenso entre cientistas e lideranças indígenas que os tempos modernos estão em crise. E que essa crise global, para onde convergem a crise climática, as crises políticas, econômicas etc., é consequência de como a civilização moderna ocidental têm escolhido habitar e explorar a Terra. Como podemos reverter essa crise? Nesse artigo, abordo a importância de irmos além de nós mesmos, engajados em nossa descolonização, para aprendermos com outros povos e saberes como podemos, juntos, recriar um mundo mais bonito do que o que temos sustentado até agora.

As crises nos convidam à transformação

Vivemos um momento permeado por crises convergentes. Crises estas que cumprem o papel de demostrar que a maneira como temos escolhido viver neste lugar comum não tem sido interessante para os humanos, para parte significativa dos demais seres e nem para o planeta. Obviamente, as escolhas feitas pela parcela da humanidade que desfrutam de condições hegemônicas do exercício do poder faz com que os efeitos dessas opções sejam mais desinteressantes para uns do que para outros como bem nos mostram as sequelas dos colonialismos de estado e da colonialidade, isto é, dos padrões coloniais que resistem na modernidade mesmo após o fim dos regimes de governo coloniais.

A questão é que mesmo para estes que estiveram do lado privilegiado da diferença colonial (Mignolo, 2003) e permanecem sustentando uma série de privilégios, a vida não tem se apresentado de maneira muito aprazível. Poucos de nós estamos, de fato, felizes e satisfeitos com nossa trajetória enquanto humanidade, com nossas escolhas e nossas ações no mundo. E, ainda, se tomarmos como referência as “catástrofes naturais” e a reação dos ecossistemas como uma resposta da Terra sobre os modos como tem sido habitada e manejada, veremos que ela também padece em “dores de parto” com os impactos da presença humana.

Milhares de pessoas, de cientistas a xamãs, já constataram e denunciaram um contexto de crise da modernidade e de desorientação moderna sobre as formas de existir neste planeta, e vêm tentando desvendar estratégias para a sua superação. Algumas possibilidades para isso emergem do contexto das próprias ciências, inseridas na atividade científica moderna, e muitas outras possibilidades mais sábias e praticáveis emergem da diversidade de visões de mundo outras que pouco, ou nada, tem a ver com o modo de proceder próprio dos sistemas de conhecimento ocidentais.

A superação de crises sempre revelará uma melhor versão de nós mesmos já que para superá-las teremos que desenvolver visões, competências e práticas diferentes daquelas com as quais estávamos acostumados quando fomos assolados por elas. A superação de uma crise exige, nesse sentido, a superação de si mesmo, enquanto pessoas ou grupos sociais, em sua forma habitual. Isto é, exige a superação de crenças, fundamentos e práticas habituais pouco coerentes com as necessidades que o momento atual revela. Tomando como certa essa premissa, a aflição, a angústia, o medo e o peso da constatação de crises convergentes no aqui e agora, podem se transformar, assim, em uma inquietação abençoada em busca a) do que nos levara à crise, b) do porque temos sido insuficientes em sua superação, c) de como podemos superá-la, e d) de como, nesse processo, revelar uma melhor versão das pessoas que somos e das comunidades as quais pertencemos.

Coexistência das narrativas de tragédia e de esperança

Este momento de crise é marcado, então, pela coexistência de narrativas de tragédia (constatação das crises e da inabilidade e insuficiência das soluções modernas em sua superação) e narrativas de esperança (busca de estratégias diferentes das adotadas convencionalmente e hegemonicamente). E se engajar na segunda narrativa parece ser a única maneira possível de não padecer impotentemente à primeira.

Inspirados no sentido dessas palavras, podemos tomar o momento presente como o momento da Grande Virada (Macy e Young Brown, 2004), isto é, como um momento sagrado em que nos dispormos à mudança de nossas histórias e relações não é mais uma escolha que permite procrastinação. A nossa transformação e de nossa relação com o outro (outros povos e com a Terra) bate a nossa porta e escolher não abri-la não me parece uma opção.

A prática cotidiana é orientada pelas histórias que são contadas pelas suas culturas

Nos estudos etnológicos aprendemos que a cosmopolítica, isto é, a prática cotidiana de uma sociedade, é orientada, antes, pelas suas premissas ontológicas, cosmológicas e epistemológicas que dizem respeito, respectivamente, a como entendem e apreendem o ser e a vida, o cosmos e todo o conjunto de saberes que orientam sua vida habitual. E esse é o ponto que soa como um agravante da crise da modernidade: a nossa desorientação ontológica e cosmológica condicionante de uma prática esquizofrênica e suicida. Ou seja, estamos confusos sobre quem somos, de onde viemos, para onde vamos, sobre o que é o mundo, suas leis e como devermos nos comportar nele para garantir a nossa sobrevivência e satisfazer a nossa busca por felicidade e pertencimento. Nossos sistemas de conhecimento hegemônicos (ciência convencional), não têm nos oferecido muitas possibilidades otimistas. Por isso é fundamental suspendermos os fundamentos ontológicos modernos para aprendermos com ontologias outras e vislumbrarmos um futuro possível.

Parte significativa das narrativas da modernidade vislumbra o seu “fim” ou como uma flecha rumo ao progresso constante, de crescimento econômico infinito, dos modos hegemônicos de existência ou como um inevitável apocalipse catastrófico sem chances de retorno. Se a primeira narrativa, na prática, é inviável e impossível dada a limitação dos “recursos” que a Terra oferece para tal pretensioso empreendimento, sua narrativa é pouco elucidativa; se a segunda narrativa, pelo tom catastrófico, nos coloca em um lugar de resignação impotente, é pouco criativa. Nenhuma oferece um fundamento coerente com a possibilidade de vislumbrar um outro mundo possível.

Portanto, é fundamental que contemos a nossa história de uma maneira que possibilite a continuidade da humanidade com a transcendência da modernidade já que se não pudermos imaginar um outro mundo possível, jamais poderemos (re)criá-lo. Para além de denunciar o “eucentrismo”, o “sociocentrismo” e o “humanocentrismo” dos modernos e as nossas más escolhas advindas desses paradigmas, a nossa motivação deve estar em vislumbrar esse momento da modernidade como a Grande Virada. Essa Grande Virada é marcada pelo fato de que os ocidentais modernos estão diante da chance de recriarem a si mesmos à medida que se dispõem a renunciar ao seu ímpeto colonizador e a aprender com, e junto, com o outro em condição de “igualdade na diferença” sem reivindicar para si um lugar epistêmica, política e ontologicamente privilegiado.

Em um mundo de extrema diversidade e em crise advinda da pretensa homogeneidade de uma única sociedade, ignorar a diversidade de outras histórias, narrativas e escolhas é sintoma de uma ignorância prepotente e inconsequente (Santos, 2010). Por isso, é crucial que adotemos o reconhecimento da credibilidade e praticabilidade de visões de mundo e narrativas outras (por visualizarem e, por isso, tornarem possíveis mundos outros) como pontapé inicial na superação do vício moderno em pretender ser e se ver a partir de um lugar de exclusividade, superioridade e universalidade.

Referências

Macy, J.; Young Brown, M. Nossa vida como gaia: práticas para reconectar nossas vidas e nosso mundo. Gaia, 2004.

Macy, J. The Wisdom to Survive: Climate Change, Capitalism & Community (2013).

Mignolo, W. Histórias locais, projetos globais: Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.

Santos, B. S. Uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências. Em: A gramática do tempo: para uma nova cultura política. 3ª ed. São Paulo, SP: Cortez, 2010.

 


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Postado por Juliana Diniz

Por meio da união entre educação e cura trabalho para a emergência de culturas regenerativas que promovam saúde pessoal e planetária.

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