A separação ecológica

[Este texto é parte do material de apoio da jornada Em busca da Visão – propósito pessoal a serviço de Gaia cuja versão online será lançada no começo de 2020.]

Por todo o mundo as pessoas concordam que a civilização moderna está falida e que enfrentamos enormes desafios que nos exigem uma profunda mudança pessoal e social. Provavelmente não concordamos em relação às soluções, mas concordamos sobre os problemas. Podemos resumir os problemas do mundo em três cenários: a separação ecológica, a separação social e a separação espiritual¹.

A separação ecológica

A separação ecológica diz respeito à separação que existe entre o “eu” e a “natureza”. Nós, enquanto economia global, usamos anualmente os recursos naturais 1,5 mais rápido que a sua capacidade de regeneração. Isso quer dizer que estamos esgotando os recursos naturais a cada ano. Embora tenhamos apenas um planeta, deixamos uma pegada ecológica de 1,5 planetas. Estamos usando 50% mais recursos do que os sistemas vivos são capazes de regenerar para atender às nossas atuais necessidades de consumo.

Além de uma pegada ecológica² insustentável, nós extrapolamos algumas das chamadas “fronteiras planetárias” que indicam quais são os limites seguros até onde podemos ir, em relação à degradação e intoxicação dos sistemas vitais do planeta, para manter a existência humana e de toda a comunidade de vida fora de risco.

“Fronteiras planetárias” foi o conceito central proposto por um grupo de cientistas liderado pelo Stockholm Resilience Centre e a National University of Australia. O quadro que as ilustra tem o objetivo de definir um espaço operacional seguro para a humanidade e alertar a comunidade internacional sobre riscos eminentes.

O quadro é composto por nove indicadores: 1) mudanças climáticas; 2) perda da integridade da biosfera (perda de biodiversidade e extinção de espécies); 3) destruição do ozônio estratosférico; 4) acidificação dos oceanos; 5) fluxos biogeoquímicos (ciclos do fósforo e do nitrogênio); 6) mudança do sistema terrestre (por exemplo, desmatamento); 7) utilização da água doce; 8) carga atmosférica de aerossóis; e 9) introdução de poluentes (por exemplo, poluentes orgânicos, materiais radioativos, nanomateriais, e microplásticos).

Uma vez que a atividade humana ultrapasse certos pontos de virada destas fronteiras, existe um risco de mudanças abruptas e irreversíveis de modo que o planeta adentra uma zona de insegurança. Devido à ação humana, que desde a revolução industrial têm se tornado o principal condutor da mudança ambiental global, algumas dessas fronteiras já foram ultrapassadas – mudanças climáticas, perda de biodiversidade e fluxo biogeoquímico – enquanto outras estão em risco iminente de serem cruzadas.

O fator agravante é o fato de que duas dessas fronteiras – mudanças climáticas e perda da integridade da biosfera – são consideradas como “fronteiras fundamentais” de modo que quando ultrapassadas podem impulsionar o planeta para um novo e totalmente instável estado.

Para além do esgotamento de recursos, a crise da ecologia planetária

O problema da separação entre o “eu” e a “natureza” está muito além do esgotamento de recursos. A pegada ecológica de 1,5 planetas e o transpasse das fronteiras planetárias nos levam à constatação de uma grave crise ecológica. Nós colocamos a ecologia planetária em risco. Nós ameaçamos não apenas a nossa sobrevivência com os hábitos que reproduzimos, nós comprometemos o mecanismo de autorregulação da Terra.

James Lovelock, um dos mais renomados climatologistas do mundo e um brilhante “médico da Terra”, se dedicou exaustivamente a comprovar, nos cânones científicos, que a Terra não é uma nave inerte, mas um organismo vivo que se autorregula a favor da vida. Ele a chamou de Gaia em homenagem à deusa que representa a Mãe-Terra na mitologia grega por ser considerada a latente potencialidade geradora.

A chave para entender a Terra como um organismo vivo é assumir que toda a vida no planeta funciona dentro de um sistema de fatores limitantes naturais. Fatores como composição atmosférica e oceânica são responsáveis por criar a condição de estabilidade climática que permite a vida florescer. Os ecossistemas naturais trabalham, nesse sentido, para sustentar de forma equilibrada as condições climáticas e químicas do planeta.

No entanto, desde o advento da agricultura e principalmente após a primeira revolução industrial, a presença humana na Terra tem desestabilizado o sistema de autorregulação de Gaia. Os altos níveis de co2 liberados na atmosfera através do uso de combustíveis fósseis somado à destruição dos ecossistemas florestais faz com que interfiramos na temperatura do planeta não apenas aquecendo-o, mas comprometendo o seu termostato natural, isto é, o seu processo de controle das variações de temperatura que garantem a manutenção da vida.

Gaia, assim como nós, controla a sua própria temperatura e as condições químicas em níveis confortáveis. E tem feito isso consistentemente desde que a vida começou – há mais de três bilhões de anos. Mas o momento atual toca em um ponto crítico. A superfície terrestre está mais aquecida do que é confortável para a vida tanto porque o Sol aqueceu ao longo de seu processo evolucionário como porque esburacamos a camada de ozônio. Em síntese, a Terra está superaquecida devido ao aquecimento dos raios solares, à ausência do filtro da camada de ozônio destruída pelos gases de efeito estufa e à crescente liberação de co2 pelos uso de combustíveis fósseis.

De acordo com o Intergovernmental Panel on Climate Change³, o ponto crítico diante do qual as mudanças se tornam irreversíveis é o de 500 ppm (partes por milhão) de co2 atmosférico. Isso significa o aumento de 3ºC e, consequentemente, a devastação das algas oceânicas e o derretimento de extensos campos de gelo da Groelândia. A vida das algas e o gelo são fatores que funcionam como parte dos processos de autorregulação de Gaia. Eles ajudam a conter os efeitos do aquecimento global provocado pelo co2 e pelos gases de efeito estufa.

A atual poluição do ar pelos gases de efeito estufa é semelhante à dispersão natural desses mesmos gases ocorrida há 55 milhões de anos quando a temperatura subiu 5ºC nos trópicos e cujas consequências duraram mais de 200 mil anos. Se continuarmos como estamos vamos alcançar esse ponto crítico em menos de trinta anos. Estamos perigosamente perto do limiar de mudanças irreversíveis na escala de tempo humana.

A partir de agora qualquer aumento de calor a partir de qualquer fonte vai expandir em vez de ser controlado porque os fatores globais de regulação climática já não estão funcionando como antes. Este fenômeno é chamado de feedback positivo. O aquecimento promove a desestabilização das florestas tropicais, das algas oceânicas, do albedo de geleiras etc. e, simultaneamente, a deficiências desses “serviços” aquece o planeta.

Hoje somos mais de sete bilhões de pessoas consumindo mais do que o planeta é capaz de fornecer. Assim, Gaia está se transformando, de acordo com as suas próprias regras internas, para um estado em que nós não somos mais bem-vindos. À medida que ela tenta cuidar dos efeitos da ação humana que comprometem a ecologia planetária, as suas condições térmicas e químicas se tornam cada vez menos amigáveis a nós. Mesmo que paremos imediatamente de envenenar o ar, as terras e as águas para produzir alimentos e combustível, Gaia levaria mais de mil anos para se recuperar do dano já infringido.

Assumir que a Terra se comporta como organismo vivo devido aos seus processos de regulação climática e condições químicas propícias à vida é fundamental para que tenhamos vontade de contribuir em sua dinâmica de autorregulação a favor da vida ao invés de nos comportar como seu maior inimigo.

Como você pode ajudar Gaia a recuperar sua saúde e vitalidade?  

Como você pode ajudá-la a desenvolver as condições propícias à vida? 

Como você pode participar da meta de Gaia – sustentar a habitabilidade neste planeta e fazer a vida prosperar?

Notas

¹O entendimento destas três separações enquanto síntese do status do mundo é parte da Teoria U, um método para gerenciar mudanças e inovação social, encabeçado por Otto Scharmer, professor senior no Massachusetts Institute of Technology.

²A pegada ecológica calcula a quantidade de recursos naturais renováveis é necessária para sustentar as gerações atuais e seu estilo de vida tendo em conta todos os recursos materiais e energéticos gastos por uma determinada população. Você pode calcular a sua pegada ecológica individual aqui: pegadaecologica.org.br

³O IPCC é o órgão das Nações Unidas responsável por fazer avaliações científicas sobre a mudança climática. É considerada globalmente a instituição mais credível quanto ao posicionamento e alertas referentes à situação climática do planeta.

Referências

James Lovelock (2006). A vingança de Gaia. Rio de Janeiro: Intrínseca.

Johan Rockström e Will Steffen et al (2009). Planetary Boundaries: Exploring the Safe Operating Space for Humanity. Ecology and Society, v. 14.

Otto Scharmer (2010). Teoria U: Como Liderar Pela Percepção e Realização do Futuro Emergente. Rio de Janeiro: Elsevier.

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre educação e cura trabalho para a emergência de culturas regenerativas que promovam saúde pessoal e planetária.

Deixe uma resposta