terra, um organismo vivo - instituto de desenvolvimento regenerativo

Terra, um organismo vivo

A devastação dos sistemas de suporte à vida no planeta é sintomática da visão de mundo que orienta a civilização moderna, uma sociedade de crescimento industrial. 

O entendimento que se tem do planeta pode ser tão diverso quanto são as visões de mundo das comunidades humanas que dele fazem parte. O nosso entendimento sobre o que é e como funciona o planeta condiciona as relações que estabelecemos com ele e como nele atuamos. Diante dos atuais danos infligidos à Terra, é fundamental revisarmos a maneira como a entendemos para, assim, tornar possível uma participação mais apropriada da humanidade em seu organismo vivo.

O aumento da população humana, a intoxicação de terras, águas e ar, o esgotamento de recursos, o acúmulo de resíduos, a mudança climática, os abusos tecnológicos, a erosão da biodiversidade etc. são sintomas de uma visão de mundo que entende o ser humano como separado da natureza e o desenvolvimento da humanidade como o crescente afastamento e dominação da natureza.

Estes sintomas de uma visão de mundo inapropriada e suicida têm ameaçado a capacidade dos sistemas vivos criarem e sustentarem as condições propícias à vida no planeta. Sobretudo, os efeitos da revolução industrial, do consumo de combustíveis fósseis e de produtos químicos ameaçam os processos de autorregulação da Terra e, consequentemente, a sobrevivência das comunidades humanas.

Teoria de Gaia, a serviço de uma nova visão de mundo

Estamos acostumados a pensar na Terra como uma nave inerte e morta com vida abundante a bordo. O máximo que conseguimos aproximar a Terra à vida é através do conceito de biosfera. Entendemos a biosfera como a parte viva da Terra, como a região geográfica onde a vida existe. No entanto, a Terra, em si, é um organismo vivo, um sistema único e autorregulador em evolução.

A teoria de Gaia, proposta por James Lovelock, entende a Terra como um sistema fisiológico dinâmico que se autorregula a favor da vida há mais de três bilhões de anos (um terço do tempo de existência do universo). A Terra viva regula o clima e a temperatura através de objetivos ajustáveis aos meios ambientes atuais e as formas de vida que quer manter.

Ela atua dentro de um conjunto de limitações ambientais que afetam o crescimento dos organismos e o ambiente físico e químico trazendo estabilidade. Exemplos destas limitações ambientais são a predação, os limites ao suprimento de nutrientes, a composição atmosférica e oceânica e o clima. Gaia é, em resumo, um sistema completo de partes animadas e inanimadas.

Da hipótese à teoria de Gaia

A hipótese de Gaia nasceu da constatação de que a conservação da atmosfera em um estado estacionário dinâmico e clima tolerável bem como a quantidade de gases atmosféricos confortáveis para a forma de vida predominante não poderiam ser efeito de uma química inorgânica aleatória. A hipótese de Gaia propunha que os organismos vivos regulam o clima e a química da atmosfera em seu próprio interesse. Nesse sentido, a biosfera seria como um sistema de controle ativo e adaptativo capaz de manter a Terra em homeostase, isto é, tendendo para o equilíbrio.

A evolução da hipótese à teoria se deu com o entendimento de que Gaia é o sistema inteiro. Ou seja, é a união de organismos e meio ambiente material que desenvolve a autorregulação e não a vida ou biosfera sozinha. A meta de Gaia é, nesse sentido, sustentar a habitalidade da vida no planeta.

Antes da teoria de Gaia, reinava no universo científico duas perspectivas antagônicas. De um lado, a concepção darwinista que entende o funcionamento da vida de acordo com a capacidade de adaptação dos organismos ao meio. De outro lado, a compreensão da geologia convencional de que a evolução da vida acontece como resultado da evolução do mundo material das rochas, ar e oceano.

A teoria de Gaia entende ambas as evoluções, dos organismos e do meio, como parte de uma só história da Terra em que a vida e seu ambiente físico evoluem como uma entidade única. A Terra como entidade autorreguladora, que controla sua temperatura e condições climáticas para estar sempre confortável, foi reconhecida no universo científico na declaração de Amsterdam em 2001.

“O sistema da Terra se comporta como um sistema único e autorregulador composto de componentes físicos, químicos, biológicos e humanos. As interações e feedbacks entre os componentes são complexos e exibem uma variabilidade temporal e especial multiescala.”

As limitações ambientais de Gaia e o impacto da presença humana

A fisiologia da Terra impõe um limite fixado pela temperatura e pelos níveis de gás carbônico no ar que uma vez ultrapassado muda irreversivelmente o seu estado.  Este é o ponto de virada em que nos encontramos hoje. A Terra já superou estes limites antes bem como já atravessou outras crises climáticas. O que é incomum na crise iminente é que os seres humanos são a causa dela e que nada tão grave aconteceu desde 55 milhões de anos atrás.

No contexto de uma sociedade global orientada para o progresso econômico-industrial, a emissão massiva de gases de efeito estufa, o desaparecimento do gelo ártico, a mudança na estrutura oceânica, a destruição das florestas tropicais etc. são aumentados e têm efeitos cumulativos. Além disso, o envelhecimento de Gaia, ao longo de seus quatro bilhões de anos, e o aumento do calor irradiado pelo sol comprometem um alto desempenho do seu mecanismo de autorregulação.

Diante disso, a preocupação com a Terra deve ser nossa motivação primária uma vez que o bem estar da humanidade depende de um planeta sadio. Para começarmos a enfrentar a questão devemos primeiro reconhecer a existência do problema, entendê-lo, chegar a conclusões corretas para, então, tomarmos providências apropriadas.

Todavia, somos ignorantes de nossa ignorância e teimosamente insistimos no conhecimento fragmentado de interesse particular. Enquanto a automanutenção do equilíbrio de Gaia é uma propriedade emergente cujo pensamento de causa e efeito não consegue explicar, o pensamento reducionista e atomístico vigente na ciência e na política modernas expressa uma visão limitada que inviabiliza uma intervenção humana apropriada no funcionamento da vida.

Por uma retirada sustentável

Hoje, diferente do passado, nossos problemas são globais e, por isso, exigem-nos uma visão ampliada, transdisciplinar, que encare a complexidade. O desenvolvimento sustentável, por exemplo, como uma solução generalizada mascarada de decência internacional não dá conta do desafio que experimentamos nesse momento histórico.

O desenvolvimento sustentável, tal como praticado pelos estados e organizações multimilionárias, direciona o planeta para uma mudança global desastrosa. Metaforicamente, se assemelha com a atitude de esperar uma vítima com uma doença terminal se curar parando de ter hábitos nocivos.

O desenvolvimento sustentável, tanto quanto o liberalismo econômico, compartilha da crença de que é possível mais crescimento econômico na Terra. Ambos negam a existência da doença da Terra acarretada pela presença humana, sua dimensão e urgência. Ambos são consequências de crenças antropocêntricas que acham que a Terra está a serviço da humanidade e deve ser explorada por ela.

Diante do dano já infligindo, a Terra levaria mais de mil anos para se recuperar. Diante disso, o esforço internacional para substituir combustíveis fósseis por fontes mais seguras de energia é o mais urgente a se fazer, mas não a única solução. Os abusos tecnológicos e energéticos e a superpovoação humana nos impelem, na visão de Lovelock, a uma retirada sustentável.

Para uma retirada sustentável é imprescindível que superemos a nossa obsessão pela ideia de progresso e aperfeiçoamento da humanidade através da exploração desmedida e colonialmente enviesada da natureza. A humanidade é chamada, neste momento, a transcender sua capacidade de destruição desastrosa incorporando suas capacidades de imaginação e criatividade.

A sabedoria de Gaia

Há uma sabedoria no funcionamento de Gaia. Diante dos danos que lhes foram infligidos, ela parece ter duas opções: anular as mudanças que promovemos no seu clima ou anular a nós. O seu processo de autorregulação aparenta não estar sadio o suficiente para anular as mudanças que promovemos no clima. Portanto, devemos certificá-la que vale a pena sermos sustentados em seu organismo vivo. Devemos fazer isso revertendo os danos já provocados e engajando a criatividade e consciência autorreflexiva humanas em um processo regenerativo em prol da autorregulação da Terra viva.

Devemos incorporar a sabedoria de Gaia e operar a partir de uma visão de mundo que entenda que os ecossistemas existem para conservar o clima e a química do planeta e não para atenderem exclusivamente a nossa necessidade de recursos e energia. Para isso, precisamos renovar o amor e a empatia pela natureza que foram perdidos pelo encantamento com a vida urbano-industrial. Apenas com a mudança de corações e mentes que acontece diante da evidência de um perigo eminente seremos capazes de decidir assertivamente por construir uma sociedade que sustente a vida e coopere com a meta de Gaia de assegurar a habitalidade em seu organismo vivo.

Referências

LOVELOCK, James. A vingança de Gaia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2006.

 


Assine a lista de email

Uma vez por semana entregamos pílulas de pensamento que nos
ajudam na construção de culturas regenerativas.

 

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre educação e cura trabalho para a emergência de culturas regenerativas que promovam saúde pessoal e planetária.

Deixe uma resposta