Da consciência ego-sistêmica à consciência eco-sistêmica

[Este texto é parte do material de apoio da jornada Em busca da Visão – propósito pessoal a serviço de Gaia cuja versão online será lançada no começo de 2020]

“No estado presente das coisas, a sobrevivência da humanidade depende de que as pessoas desenvolvam uma preocupação sincera com toda a humanidade e não apenas com sua própria comunidade ou nação. A realidade da nossa situação nos impele a agir e a pensar com mais clareza. A mentalidade estreita e o pensamento autocentrado podem ter nos servido bem no passado, mas hoje só poderá nos levar ao desastre.” — Joanna Macy

Otto Scharmer, professor titular do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e co-fundador do Presencing Institute, também entende que vivemos um processo de transição de histórias e de consciências. Para ele, é fundamental e inevitável a aceleração de mudanças de paradigma e, mais profundamente, a mudança de uma consciência ego-sistêmica para uma consciência eco-sistêmica.

Parafraseando Buckminster Fuller, um visionário designer, não mudamos a realidade lutando contra ela, mas construindo um modelo novo que torne o modelo atual obsoleto. Sempre que um paradigma é incapaz de fornecer respostas úteis aos maiores desafios de um dado período, a sociedade entra em uma fase de transição em que, mais cedo ou mais tarde, substitui o sistema operacional existente por um mais atualizado. 

A força motriz necessária para mover uma sociedade de um sistema de organização para outro está no encontro entre os desafios externos e a ampliação da consciência humana. Esse é o momento em que nos encontramos. As separações ecológica, social e espiritual pressionam a emergência de um novo estado de consciência capaz de cuidar das causas desses sintomas.

A crise climática, a desigualdade social e o aumento progressivo de infelicidade e doenças psíquicas ignorados pelo modo de operar da economia atual já não podem mais ser negligenciados. Isso ressoa diretamente com um novo estágio de consciência humana que é convidado a vir a ser como resposta aos desafios apresentados.

Consciência, a variável descartada

A causa-raiz que nos faz pôr em cena os mesmos cenários repetidamente diz respeito à qualidade do pensar de onde nascem nossas ações. O pensamento cria o mundo. O estado de consciência, atenção e presença é o fator determinante por trás da construção de modelos mentais, estruturas sistêmicas e padrões de comportamento. 

E, de acordo com Otto, o pensamento econômico tem um papel particularmente decisivo na recriação dos cenários de separação ecológica, social e espiritual. Mas, apesar de sua relevância prática, a consciência não é uma variável devidamente considerada no âmbito da economia e da administração convencionais. 

As teorias econômicas vigentes, inspiradas nas escolas inglesas fisiocrata e mercantilista, construíram modelos de gestão baseados na competição porque assumiram que o ser humano tem uma natureza essencialmente egoísta. Como consequência da visão de uma natureza humana inalterável, pouco conhecimento tem sido desenvolvido e pouca atenção está sendo dada às condições que permitem que um sistema mude de um estado para outro.

A teoria econômica dominante e o conjunto de ferramentas da administração convencional limita a ação econômica a um único estado de consciência operacional apesar de existirem múltiplos estados de consciência a partir dos quais os economistas, administradores e agentes políticos podem operar. Se esses diferentes estados de consciência fossem incorporados à teoria econômica e se os formuladores de políticas prestassem atenção no impacto disso sobre os resultados que criamos, um novo jeito de fazer política e economia nasceria.

Isso ainda não aconteceu porque, apesar da economia global funcionar como um conjunto de ecossistemas altamente interdependentes, a consciência dos atores dentro deles é fragmentada em um conjunto de egos que se movem de forma autocentrada e a partir do auto-interesse. Isso faz com que a lacuna entre a realidade interdependente do ecossistema econômico e a consciência ego-sistêmica de seus atores seja o maior desafio a ser enfrentado nos negócios, governo e sociedade civil.

A evolução do pensamento econômico

Compreender o histórico da economia moderna nos ajuda a entender como pode se dar e já está acontecendo a transição de uma consciência “ego” para uma consciência “eco” que honra e atende aos convites da grande obra em direção ao Ecozóico e da grande virada em direção a uma sociedade que promova a vida. Pode-se distinguir três estágios principais na evolução do pensamento econômico nos últimos trezentos anos.

O primeiro estágio foi o da economia centrada no estado. Ela gerou estabilidade, mas perdeu o dinamismo. Isso abriu espaço para a economia de livre mercado que dá origem à classe empresarial e utiliza a relação oferta-demanda e a competição como modos mais descentralizados de coordenar a economia. Ela progrediu em alguns pontos, mas criou e negligenciou muitas externalidades, isto é, indesejáveis efeitos socioeconômicos e ambientais causados pela venda de produtos e serviços.

Isto, por sua vez, levou à economia social de mercado que pretendeu combinar o princípio da liberdade de mercado com o princípio da equidade social cuidando de algumas externalidades restritas aos limites nacionais. Ela funcionou bem em alguns países europeus, mas não atingiu alcance global.

À medida que entramos no século XXI este terceiro estágio da economia não consegue se mostrar adequado porque não somos capazes de lidar com a intensificação das externalidades globais evidentemente manifestadas nas mudanças climáticas e nos níveis crescentes de desigualdade social. A convergência de crises econômicas e sociais apresenta a necessidade de que os três setores da sociedade – empresas, governo e sociedade civil – não estejam mais em conflito e comecem a colaborar para reinventar o sistema econômico.

Olhando para a evolução do pensamento econômico é possível perceber que a economia é a manifestação concreta dos estágios pelos quais tem passado a consciência humana. Ao longo dos últimos séculos nos movemos de uma consciência autoritária e centralizadora para uma consciência ego-sistêmica conduzida pelo auto-interesse e competição para, então, uma consciência empática que tenta, sem muito sucesso, cuidar das necessidades de todas as classes sociais. Para Otto, a emergência de uma consciência eco-sistêmica é o próximo estágio deste caminho.

A emergência da consciência eco-sistêmica

A transição da consciência ego-sistêmica para a consciência eco-sistêmica se dá quando o incentivo à colaboração em torno de um objetivo comum faz os atores envolvidos superar o olhar restrito às suas necessidades particulares em direção à conscientização das necessidades de todas as partes do sistema e do próprio sistema como algo além da soma das partes.

Esse processo envolve a associação, colaboração e cocriação entre diversos grupos de interesse que reconhecem que precisam uns dos outros para mudar todo um sistema e, com isso, gerarem benefícios mútuos. Isso passa pela transição do estado operacional autocentrado e da visão fragmentada para uma ação orientada pela visão sistêmica e holística do sistema.

Enfrentar os desafios deste século requer a atualização da narrativa econômica condicionada a um obsoleto ego-sistema focado no bem estar de si mesmo para uma narrativa que promova a consciência eco-sistêmica que enfatiza o bem estar do todo. Otto nos adverte que facilitar esse tipo de mudança não é um esforço esotérico ou periférico. É, ao contrário, um processo que está acontecendo em milhares e superdiversas organizações facilitado por lideranças, agentes de transformação e pessoas comuns. Seja no nível da consciência, da ação, da gestão, participemos do levante da consciência eco-sistêmica!

Referências

Otto Scharmer. Teoria U: Como Liderar Pela Percepção e Realização do Futuro Emergente. Elsevier, 2010.

Otto Scharmer e Katrin Kaufer. Liderar a partir do futuro que emerge: A evolução do sistema econômico ego-cêntrico para o eco-cêntrico. Alta Books, 2019.

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre educação e cura trabalho para a emergência de culturas regenerativas que promovam saúde pessoal e planetária.
  
 

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