Da história da separação à história do interser

[Este texto é parte do material de apoio da jornada Em busca da Visão – propósito pessoal a serviço de Gaia cuja versão online será lançada no começo de 2020]

“O mundo hoje, globalizado, tecnocrático, pragmático e vertiginoso, sofre de uma sequência acumulada de crises cada vez mais agudas que, no fundo, são a expressão de uma crise geral ou estrutural, uma crise de civilização.” — Victor Toledo e Narciso Barrera-Bassols

Da sociedade de crescimento industrial à sociedade que sustenta a vida, do Antropoceno ao Ecozóico, da consciência ego-sistêmica à consciência eco-sistêmica… Através de todas essas formas de contar a história da transição que vivemos hoje vemos a necessidade de superação da história da separação pela história do interser.

A história do mundo

“Existe uma poeta americana que morreu faz alguns anos que se chamava Muriel Rukeyser. Ela disse uma frase que, para mim, sempre pareceu esplêndida: “o mundo não é feito de átomos, o mundo é feito de histórias”. E eu acredito que o mundo deve estar feito de histórias porque são as histórias que a gente conta, escuta, recria, multiplica, que permitem transformar o passado em presente e permitem transformar o distante em próximo, possível e visível.” — Eduardo Galeano

A evolução cultural da humanidade acontece através de uma narrativa que cresce, expande, entra em crise, colapsa e renasce de forma diferente. Assistimos ao crescimento e expansão da história da separação, vivemos a sua crise, adentramos na zona de colapso e somos convidados, agora, a participar ativamente do nascimento da história do interser.

Tal como visto no modelo iceberg, as estruturas sociais refletem as nossas visões de mundo, ideologias invisíveis e sistemas de crença. Em outras palavras, na base de uma civilização e da forma como ela se organiza encontra-se uma história, uma narrativa, uma mitologia. Charles Eisenstein, autor dos preciosos livros Economia Sagrada e Ascensão da Humanidade, chama de história do mundo ou história das pessoas a matriz de narrativas, entendimentos e sistemas simbólicos que contêm as respostas que uma cultura oferece às perguntas mais básicas da vida:

Quem sou eu?

Por que as coisas acontecem? 

Qual o sentido da vida? 

O que é a natureza humana? 

O que é o sagrado? 

Quem somos nós enquanto pessoas? 

De onde viemos e para onde vamos?

As respostas dadas a essas questões dependem da cultura que as respondem. Mas estamos tão imersos nas respostas que as vemos como a própria realidade. O mundo em que vivemos respondeu essas perguntas de modo a criar uma história de separação e instalar um programa de controle que orienta a vida. Embora possamos achar essas respostas cientificamente obsoletas, elas ainda informam a nossa visão do que é correto, real e possível.

“Quem você é? Você é um indivíduo separado entre outros indivíduos separados em um universo que é separado de você também. Você é um amontoado cartesiano de consciência olhando para fora pelos olhos de um robô feito de carne, programado por seus genes para maximizar o auto-interesse reprodutivo. Ou você é uma bolha de psicologia, uma mente (de base cerebral ou não) separada de outras mentes e separada da matéria. Ou você é uma alma encapsulada num corpo, separada do mundo e separada de outras almas. Ou você é uma massa, um conglomerado de partículas operando de acordo com as forças impessoais da física.

Por que as coisas acontecem? Novamente, as forças impessoais da física agem sobre um substrato material genérico de partículas fundamentais. Todo fenômeno é resultado dessas interações matematicamente determinadas. Inteligência, ordem, propósito e intento são ilusões; abaixo deles tudo é meramente uma desordem de forças e massas sem propósito. Qualquer fenômeno, todos os movimentos, tudo da vida, é um resultado da soma total de forças agindo sobre objetos.

Qual o propósito da vida? Não há nenhum propósito, apenas causa. No fundo, o universo é cego e morto. O pensamento não passa de impulso eletroquímico; o amor, de uma cascata hormonal que ativa os nossos cérebros. O único propósito da vida (outro além do que fazemos de nós) é simplesmente viver, sobreviver e reproduzir, maximizar auto-interesse racional. Como somos fundamentalmente separados uns dos outros, meu interesse próprio provavelmente estará às custas do seu. Tudo que não é seu é, no melhor dos casos, indiferente ao seu bem-estar e, no pior, hostil.

O que é a natureza humana? Para nos proteger desse universo hostil de competição entre indivíduos e forças impessoais, nós temos de exercer o máximo de controle possível. Nós vamos à caça de qualquer coisa que amplie esse objetivo; por exemplo, dinheiro, status, segurança, informação e poder – todas essas coisas que chamamos “mundanas”. Bem na fundação da nossa natureza, nossas motivações e nossos desejos está o que apenas pode ser chamado de mal. Isso é o que um maximizador de interesse pessoal impiedoso é.

O que, então, é sagrado? Já que a cega e impiedosa busca por interesse próprio é antisocial, é importante superar nossa programação biológica e perseguir “coisas mais elevadas”. Uma pessoa santa não sucumbe aos desejos da carne. Pega o caminho da auto-negação, da disciplina, ascendendo ao campo do espírito ou, na secular versão dessa cruzada, ao campo da razão e da mente, princípios e ética. Para os religiosos, ser sagrado é transcender; a alma é separada do corpo e Deus vive alto acima da terra. Apesar de sua oposição superficial, ciência e religião concordaram: o sagrado não é deste mundo.

Quem somos nós enquanto pessoas? Nós somos uma espécie especial de animal, o ápice da evolução, possuindo cérebros que possibilitam a transferência de informação tanto cultural quanto genética. Nós somos únicos em possuir (na visão religiosa) uma alma ou (na visão científica) uma mente racional. No nosso universo mecânico, nós sozinhos possuímos consciência e meios práticos para moldar o mundo de acordo com nosso desejo. O único limite para nossa habilidade de fazer isso é o tanto de força que nós podemos dirigir e a precisão com que a aplicamos. Quanto mais estamos aptos a fazer isso, melhor nos saímos nesse universo indiferente e hostil, mais confortáveis e seguros estaremos.

De onde viemos e para onde vamos? Nós começamos nus, animais ignorantes, mal dando conta de sobreviver, levando vidas indecentes, brutas e curtas. Por sorte, graças aos nossos grandes cérebros, a ciência substituiu a superstição e a tecnologia o ritual. Nós ascendemos para nos tornar os deuses e possuidores da natureza, domesticando plantas e animais, dirigindo forças naturais, vencendo doenças, desnudando os mais profundos segredos do universo. Nosso destino é completar essa conquista: libertar-nos do trabalho, das doenças, da própria morte, ascender às estrelas e deixar a natureza e tudo mais para trás.”

A narrativa da separação foi responsável por nos levar a criar o mundo que vemos desmoronar hoje. Ela nos envolveu em um discurso sedutor de que a humanidade estaria destinada a criar um mundo perfeito através da ciência e da tecnologia com o intuito de conquistar a natureza, transcender o instinto e construir uma sociedade em que o intelecto sobrepõe-se a quaisquer limitações. 

Ela foi construída como uma bolha desconectada do enorme sofrimento humano e da degradação ecossistêmica que ela mesma causou. Ela trata a fome, as armas nucleares, a devastação florestal, a extinção massiva de espécies etc. como problemas isolados a serem resolvidos pela ciência e tecnologia, como fatos tristes da vida a serem lamentados ou como tabus que devem ser ignorados.

Transição pessoal e planetária

“A verdadeira batalha no mundo de hoje não é entre civilizações ou culturas, mas entre os diferentes futuros evolutivos que são possíveis para nós e nossa espécie agora. O que está em jogo é nada menos que a escolha de quem nós somos, quem queremos ser, e de que história do futuro queremos participar. A verdadeira questão, então, é: “Por que estamos aqui?” — Otto Scharmer⠀

Mas essas respostas não atendem mais às nossas necessidades existenciais. Estamos à beira de um abismo em que nos resta atravessar o espaço vazio da velha história em direção à nova história. No mais profundo, nós sabemos que o mundo deveria ser mais bonito e que a vida deveria ser mais autêntica e significativa do que é hoje. 

Nós sabemos disso e expressamos a nossa revolta inconscientemente na forma de depressão, vícios e violência. Essa é a forma que temos de negar nossa participação no programa de controle da civilização industrial e tecnológica, pois “quando a mente consciente não pode encontrar uma razão para dizer não, o inconsciente diz não à sua própria maneira”

O discurso reconfortante de que “está tudo bem” está se desintegrando e nos levando a assumir, mesmo contra a nossa vontade, que algo deve mudar profundamente e que estamos inevitavelmente em uma transição de mundos. Nós somos os agentes dessa transição pessoal e planetária. Internamente somos convocados a transformar a experiência de estar vivo. Externamente somos convocados a transformar o papel da humanidade sobre a Terra. A nossa jornada se faz na medida em que damos passos diários em direção ao mundo mais bonito que nossos corações sabem ser possível.

No entanto, nos sentimos impotentes demais para deixar de participar dessa corrida da civilização industrial em direção ao abismo. Sabemos que vivemos de um jeito equivocado, mas não sabemos como fazer diferente. E quando descobrimos sentimos que não seremos capazes de sustentar esse novo jeito de ser e viver. Infelizmente, é comum acharmos que cultivar alimento orgânico, aderir às novas economias, praticar comunicação não-violenta, ser autêntico e criativo, viver em comunidade etc. são para pessoas que se retiraram do mundo e foram viver em ecovilas.

Ainda sim, alguns de nós intuímos que do jeito que estamos vivendo e o mundo acontecendo não dá pra continuar. Há cinquenta anos achávamos que sabíamos para onde o mundo caminhava, mas agora estamos acordando para o fato de que os cientistas não tem tudo sob controle e de que a tecnologia não pode realizar a utopia de um mundo sem problemas. Não acreditamos mais nos nossos contadores de histórias oficiais: as elites econômicas e os governantes. Assim sendo, nos encontramos sem uma visão de futuro.

Resistência à morte

“O pressuposto da vulnerabilidade aos perigos depende mais da falta de confiança nos recursos disponíveis do que da natureza das ameaças reais.” — Zygmunt Bauman

Tudo que está à beira da morte apresenta sinais de vigor em resistência à própria morte. Antes de morrer, os animais, por exemplo, trepidam com vitalidade. Do mesmo modo, com o colapso da narrativa da separação aumenta-se a resistência à transformação. O aumento exacerbado do feminicídio, homofobia e racismo são inflamações violentas sintomáticas do apego às velhas identidades que compõem a história da separação. Paradoxalmente, estamos produzindo bombas de hidrogênio capazes de destruir muito mais do que a Terra em um momento em que deveríamos estar somando esforços para tentarmos sobreviver nela apesar de toda a destruição já causada.

O acontecimento de eventos insensatos e seriamente injustos — como os atentados terroristas e as consequentes respostas nacionais ou os homicídios em massa causados por sujeitos com graves transtornos psíquicos — quebram as defesas psíquicas e sociais e promovem uma crise cultural onde o que era considerado normal é suspendido. Mas a narrativa dominante logo se recupera e incorpora o acontecimento na sua própria narrativa. 

Diariamente, ouvimos discursos que normalizam o absurdo da violência e da guerra. Ouvimos que se quisermos fazer uma agricultura sem veneno, iremos morrer de fome; que os regimes de governo autoritários são a única forma de conter a baderna social; que a economia deve ser competitiva porque somos irremediavelmente egoístas. 

Enquanto vemos as narrativas do absurdo sendo normatizadas, inevitavelmente, olhamos com cinismo, desesperança e impaciência para o mundo que nossos corações sabem ser possível — um mundo onde nossos dons beneficiam a todos e onde nossas atividades diárias contribuem para a cura das pessoas e dos ecossistemas. De fato, nós não estamos prontos para entrar coletivamente na nova história porque a narrativa antiga permanece inabalável em muitos cenários. 

Apesar de a história do interser vir à mente algo como alternativo, holístico ou ecológico, ela ainda não está pronta. Mas nós estamos preparados para avançar no espaço-tempo sagrado entre histórias. Cada desastre anunciado evidencia a realidade por detrás da narrativa antiga e faz um convite alarmante para a nova história. O próprio desespero, desconfiança e desesperança frente ao convite invasivo para a construção de um outro mundo possível acabam funcionando como portas de entrada para habitarmos a nova história.

Interser, a cura para a humanidade

“O colapso da velha história é uma espécie de processo de cura que revela feridas escondidas sob seu tecido e as expõe à luz restauradora da consciência.” — Charles Eisenstein

Apesar de não ter uma expressão acabada, a história do interser reconecta polaridades desconectadas na era moderna: eu e outro, humanidade e natureza, trabalho e diversão, disciplina e desejo, matéria e espírito, masculino e feminino, dinheiro e dom, justiça e compaixão. 

Enquanto a história da separação construiu um programa de controle da mente sobre a matéria e do eu sobre o outro, a história do interser sugere uma era do encontro, uma era ecológica, um mundo da dádiva. Ela responde de maneira muito diferente às questões que definem a vida. Ela não apresenta modelos ou receitas, mas incentiva e nutre-se de princípios como:

“O meu ser participa do seu ser e de todos os seres. Isso vai além de interdependência – a nossa própria existência é relacional.

O que nós fazemos ao outro, fazemos a nós mesmos.

Cada um de nós tem uma dádiva única e necessária a dar ao mundo.

O propósito de vida é a expressão de nossas dádivas.

Cada ato é significativo e tem um efeito no cosmos.

Nós somos fundamentalmente não separados um do outro, de todos os seres e do universo.

Toda pessoa que encontramos e toda experiência que temos espelha algo de dentro de nós mesmos.

A humanidade é destinada a se juntar completamente à comunidade de toda a vida na Terra oferecendo nossas dádivas humanas únicas para o bem-estar e o desenvolvimento do todo.

O propósito, a consciência e a inteligência são propriedades inatas da matéria e do universo.”

Se pudéssemos eleger o princípio mais essencial da história do interser seria o de que nenhum ser está separado do universo e que, portanto, participamos de todos e de tudo. Charles Eisenstein alerta que este princípio não é uma abstração teórica e que, portanto, nós podemos sentí-lo. De fato, muitas vezes já o experienciamos. 

Estranhamente, a nossa empatia se estende para além de nós mesmos e para além de nossa espécie. Vemos isso acontecer quando dói em nós a morte de pessoas desconhecidas, os crimes ambientais, a extinção de espécies etc. Confrontar tudo isso dói não porque fazemos um cálculo racional de como isso pode nos afetar, mas porque de alguma forma tudo isso acontece a nós mesmos.

O interser coloca em xeque a ideia de que o interesse próprio pode existir independente do interesse dos demais e de que a natureza do ser humano é puramente egoísta. A interexistência se revela como a nossa própria realidade através da dor que sentimos pelo sofrimento do outro e do desejo inexplicável que temos de servir a algo maior do que nós mesmos.

No entanto, desde que nascemos nos fizeram acreditar na história da separação e nos submeter ao programa de controle. Crescemos achando que seríamos felizes e realizados ao atingir certo grau de segurança e conforto em nossas vidas. Com o avançar da idade, percebemos que mesmo depois de atingi-los ainda estamos insatisfeitos. No fundo, desejamos servir ao bem de todos e só nos sentimos realizados quando nos engajamos nessa tarefa. Afinal, “não somos apenas um ego encapsulado dentro da pele, uma alma embalada em um corpo. Nós somos cada outro; nós somos o mundo”.

Interser, necessidade para sobreviver e condição para existir

“Ser é interser.” — Thich Nhat Hanh

Tudo que acontece ao mundo acontece a nós mesmos. Mas não sentimos remorso por viver a nossa vida egoisticamente porque a nossa participação na destruição do mundo é difusa. Só temos noção da destruição que fazemos com nossas próprias mãos. A destruição que promovemos ao consumir produtos e serviços de corporações imprudentes, ao nos omitirmos quando o mundo pede voz ativa ou ao viver a vida a serviço do auto-interesse permanece oculta. 

No entanto, essa dor permeia nossa vida completamente a ponto de mal sabermos o que é nos sentirmos bem. O nosso amortecimento é uma estratégia de sobrevivência. Adotamos mecanismos de defesa para cuidar desse estado patológico inexplicável. E logo eles se tornam vícios. Inevitavelmente, comportamentos que aliviam a dor sem curar a fonte tornam-se vícios.

A ganância é um dos maiores vícios modernos. Mas a ganância é só uma tentativa suicida de atender uma necessidade secundária quando a necessidade essencial – servir – está indisponível. Ela é uma tentativa de expandir o eu separado para compensar as conexões perdidas que compõe o interser. O que precisamos está indisponível na vida que a civilização moderna nos oferece. Como resultado, o desejo de servir ao bem comum está sendo canalizado para um substituto ineficaz e com imensos efeitos colaterais.

Por isso, é importante que cheguemos às raízes dos comportamentos que nos trouxeram até aqui. A noção de um eu separado do todo que deve dominá-lo é a raiz do paradigma moderno, colonial, patriarcal, capitalista etc. Ao entender isso podemos nos relacionar com a ganância e o egoísmo sem a motivação de destruí-los de forma impiedosa. Ao tocar as bases que os alimentam dentro das pessoas podemos lembrá-las de sua realidade interdependente e ajudá-las a assumir a sua interexistência. 

As calamidades estão acontecendo tão rápido que a antiga história não tem tempo de se reestruturar. Esse é o momento do nascimento da nova história. A partir dela, acessamos novas e poderosas formas de fazer a mudança acontecer sem que tenhamos que nos afastar ou combater a todo o custo o mundo que está imerso na separação. Já é hora de tomarmos a nossa interexistência não apenas como necessidade para sobreviver, mas como condição para existir.

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 Todos os fragmentos de texto em itálico são citações de Charles Eisenstein e estão presentes no livro O mundo mais bonito que nossos corações sabem ser possível

Referências

Charles Eisenstein. O mundo mais bonito que nossos corações sabem ser possível. Palas Athena, 2016.

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre educação e cura trabalho para a emergência de culturas regenerativas que promovam saúde pessoal e planetária.
  
 

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