Da sociedade de crescimento industrial à sociedade que sustenta a vida

[Este texto é parte do material de apoio da jornada Em busca da Visão – propósito pessoal a serviço de Gaia cuja versão online será lançada no começo de 2020]

“A característica mais marcante deste momento histórico não é que estamos a caminho de destruir nosso mundo — na verdade, estamos neste caminho há algum tempo. É que estamos começando a despertar de um sono de milênios para um relacionamento totalmente novo com o nosso mundo, com nós mesmos e com os outros.” — Joanna Macy

A sociedade de crescimento industrial fez das pessoas engrenagens na roda da produção e do consumo e está devastando os recursos limitados da natureza. Ela nos isolou do mundo natural e nos fez perder a percepção de nossa conexão com todos os seres. Mais ainda, ela nos fez esquecer que nós somos a própria Terra tomando consciência de si mesma. A visão analítica e mecânica característica dessa sociedade obscureceu a visão holística e orgânica dos fenômenos impedindo-nos de ver a vasta e complexa rede de relações interdependentes de todos com tudo.

As crises convergentes, cuja conta é paga pelas populações desprivilegiadas, são causadas pelo atual sistema econômico dependente da aceleração do crescimento baseado no consumo e, consequentemente, no esgotamento dos recursos naturais. Esta economia suicida define seus objetivos e mede seu desempenho em termos de lucros corporativos cada vez maiores. Isso implica em velocidade crescente de extração e transformação dos recursos naturais em mercadorias associada ao aumento da concentração de renda e da desigualdade social.

Mas uma revolução está em curso porque as pessoas estão percebendo que nossas necessidades podem ser atendidas sem ameaçar comunidades humanas e sem destruir o nosso próprio mundo. Estamos começando a perceber que já temos o conhecimento técnico, os meios de comunicação e os recursos materiais necessários para cultivar alimentos suficientes em qualidade e quantidade e atender nossas necessidades energéticas garantindo a integridade socioecológica dos territórios.

Com essa percepção, a narrativa da grande virada se fortalece. Entre outras coisas, a nova história da humanidade — a grande virada de uma sociedade de crescimento industrial para uma sociedade que promove a vida — se constrói em cima da percepção ampliada do tempo de modo que o passado e o futuro se fazem presentes no agora. 

Trazemos o passado para habitar o presente ao reconhecer e, verdadeiramente, considerar a sabedoria das tradições ancestrais que vieram antes de nós. Trazemos o futuro para habitar o presente cuidando das necessidades das futuras gerações e pegando-lhes emprestado a sua perspectiva sobre o que se passa no mundo hoje. Joanna Macy diz que, se houver um mundo habitável para as futuras gerações, elas olharão para a transição histórica que estamos atravessando hoje como uma inescapável aventura e uma grande virada do rumo do mundo.

Com essa noção de tempo profundo somos capazes de ver como a grande virada ganha impulso e acelera através das escolhas de incontáveis ​​indivíduos que se unem para sustentar, promover e celebrar a vida. Embora não seja reconhecida pela mídia sob controle das corporações, ela pode ser vista em uma infinidade de comunidades, iniciativas e empreendimentos engajados em conter os danos feitos à Terra, criar alternativas estruturais ao jeito como nos organizamos política, social e economicamente, e transformar consciências. Apesar de não termos como saber se será possível habitar uma sociedade que sustenta a vida, devemos saber que esta grande virada está em andamento. 

Esse jeito de contar a história da humanidade — como uma grande virada em direção a uma consciência biocêntrica e ética de cuidado com a vida — surge em resposta direta às crises ecológicas, sociais e econômicas do nosso tempo. Ele nos ajuda a enfrentar esses desafios com a visão clara e o coração aberto, sem apego aos resultados de nossas ações e sem deixar que a sobrecarga emocional nos paralise. Em vez de nos impor regras ou declamar sermões, nos convida a olhar para o contexto atual e fazer nossas próprias escolhas. 

Nós podemos escolher a maneira de ver a história da Terra e da humanidade se desdobrando atualmente. E a maneira como escolhemos vê-la faz toda diferença em como escolhemos dela participar. Somos capazes de perceber o levante de uma virada ecológica apesar do regresso de regimes autoritários, do ápice da crise climática, dos incontáveis crimes ambientais, do acirramento da violência nas periferias urbanas e de toda a loucura cometida em nome do auto-interesse, dos lucros corporativos e do vício em poder? Seguir escolhendo pela vida, apesar de todos os apesares, é a condição para que possamos agir em seu nome e a seu favor.

Referências

Joanna Macy e Molly Young Brown (2004). Nossa vida como Gaia. Práticas para reconectar nossas vidas e nosso mundo. São Paulo: Gaia Editora.

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre educação e cura trabalho para a emergência de culturas regenerativas que promovam saúde pessoal e planetária.
  
 

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