O papel da visão de mundo na construção de uma sociedade viável

O termo visão de mundo pode ser entendido como a lente que utilizamos para enxergar, interpretar e nos relacionar com o mundo. É um sistema de crenças inter-relacionadas que age como um filtro através do qual o fenômeno é percebido e compreendido. Pessoas diferentes — com culturas, histórias e meios de convívio distintos — interpretarão um mesmo acontecimento de forma particular. Um aspecto crucial deste entendimento é que o filtro da visão de mundo opera majoritariamente de forma invisível aos indivíduos e organizações cujo pensamento e comportamento influencia. Não só, a visão de mundo define o que pode e o que não pode ser conhecido ou feito, quais objetivos devemos buscar e quais caminhos é possível trilhar. De forma geral, a visão de mundo é construída através das histórias que nos contam e que contamos sobre o mundo, a sociedade e nós mesmos.

Sem questionar a nossa visão de mundo e a narrativa que tem moldado a nossa cultura não estamos provavelmente repetindo os mesmos erros de novo e de novo? - Daniel Wahl

Apesar dos termos visão de mundo e paradigma serem frequentemente utilizados como sinônimos intercambiáveis, eles podem ser entendidos a partir de suas singularidades. A visão de mundo é a forma como enxergamos, entendemos e nos relacionamos com o mundo. Para tanto, é necessário um conjunto específico de ferramentas para estudar o fenômeno deste mundo a partir de uma perspectiva particular, que seria então o paradigma científico ou social associado (DU PLESSIS e BRANDON, 2014).

Assim, o primeiro passo na busca por soluções para as crises de nosso tempo é identificarmos o sistema de crenças em que operamos para então sermos capazes de traçar a origem do nosso modo de pensar e nos familiarizarmos com os filtros que construímos ao longo da vida. Uma visão de mundo conscientemente construída e adotada pode definir novas práticas e transformar a forma como nos engajamos com o ambiente natural e construído (HES e DU PLESSIS, 2014).

A visão de mundo dominante, responsável pela construção do mundo moderno que conhecemos hoje, pode ser chamada de visão de mundo mecanicista. Em contraponto, temos a visão de mundo ecológica, ambas fundadas em crenças e valores distintos e muitas vezes opostos.

A visão de mundo mecanicista

A visão de mundo mecanicista, estabelecida nos séculos XVI e XVII, é majoritariamente atribuída às ideias de Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton, assim, é referido também como paradigma cartesiano ou newtoniano. A revolução científica, iniciada nestes tempos, consolidou novas metáforas que substituíram a noção medieval de um universo orgânico, vivo e espiritual pela metáfora do mundo como uma máquina.

Quinhentos anos depois o sistema de crenças mecanicista ainda influencia e dirige todas as facetas da vida moderna, incluindo a ciência, educação, negócios, economia, assim como projetamos e construímos habitações humanas e as formas de manejarmos a Terra (DU PLESSIS, 2009 apud BENNE e MANG, 2015). No cerne desta visão de mundo está a crença de que o universo como um todo, incluindo os organismos vivos, funcionam como um sistema mecânico que é governado por leis universais. Isto resulta em crenças primárias, como as descritas por Sterling (2009):

  1. Resolução de problemas: “Para cada problema, existe uma solução”. Crença no poder da abordagem de solução de problemas.
  2. Pensamento analítico: “Podemos entender algo ao fragmentá-lo em suas partes constituintes”. Crença de que um todo complexo pode ser entendido ao estudar os detalhes.
  3. Reducionismo: “O todo não é mais do que a soma de suas partes”. Crença de que não existem propriedades emergentes.
  4. Causa e efeito: “A maioria dos processos são lineares e caracterizados por causa e efeito”. Crença de que os eventos e fenômenos possuem um ponto de início e fim identificáveis.
  5. Atomismo: “A maior parte dos problemas e eventos são fundamentalmente discretos ou podem ser considerados assim, e devem ser lidados adequadamente de forma segregada”. Crença de que os problemas são essencialmente não relacionados.
  6. Fronteiras estreitas: “É eticamente aceitável voltar a sua atenção ou preocupação para um escopo estreito, como quem diz: isso não é problema meu”. Crença de que o nosso sistema de preocupação é restrito. Não precisamos olhar além de nossas preocupações mais imediatas como indivíduo, membro familiar, consumidor, empreendedor, etc.
  7. Objetivismo: “A objetividade é tanto possível quanto necessária para entender as questões”. Crença de que é importante excluir nossos sentimentos e valores em nossa análise e julgamento.
  8. Dualismo: “Podemos definir ou valorar algo ao diferenciá-lo do que ele não é, ou de seu oposto”. Crença de que a economia é separada da ecologia, pessoas são separadas da natureza, fatos são separados de valores, etc.
  9. Racionalismo: “Podemos entender as coisas apenas através de respostas racionais. Qualquer outra abordagem é irracional”. Crença de que precisamos minimizar a nossa intuição e saber não-racional.
  10. Determinismo: “Se nós sabemos qual é o estado de algo neste momento, podemos geralmente prever os resultados futuros”. Crença na certeza, predição e na possibilidade de controle.

Esta visão de mundo, amplamente difundida e internalizada na sociedade moderna, tende a formar pessoas que são boas em (STERLING, 2009):

  • Analisar coisas – porém deficientes em “pensar fora da caixa” e em sintetizar narrativas.
  • Categorizar e rotular coisas – porém, deficientes em perceber a natureza inter-relacionada da realidade que geralmente está além das categorias convenientes.
  • Ver os detalhes e lidar com as partes – porém, deficientes em apreciar os padrões gerais em eventos, organizações ou outros fenômenos.
  • Focar em apenas um fator ou objetivo – porém, deficientes em reconhecer e equilibrar múltiplos fatores e objetivos.

Este tipo de abordagem obteve sucesso no passado, mas é inadequada e ineficiente para lidar com as condições de aumento da complexidade, incerteza e volatilidade em sistemas econômicos, sociais e ecológicos dos dias atuais. Enquanto ainda possui validade e aplicabilidade para problemas lineares e bem delimitados, esta abordagem é imprópria para os problemas complexos que são características dos problemas de sustentabilidade (STERLING, 2009).

Charles Eisenstein (2013) chama de História do Mundo ou de História das Pessoas a matriz de narrativas, entendimentos e sistemas simbólicos que contêm as respostas que uma dada cultura oferece às perguntas mais básicas da vida. Em uma sociedade em que a visão de mundo mecanicista é dominante, a narrativa principal é a história da separação. Essa narrativa está muito bem sintetizada no seguinte trecho:

Quem você é? Você é um indivíduo separado entre outros indivíduos separados em um universo que é separado de você também. Você é um amontoado cartesiano de consciência olhando para fora pelos olhos de um robô feito de carne, programado por seus genes para maximizar o autointeresse reprodutivo. Ou você é uma bolha de psicologia, uma mente (de base cerebral ou não) separada de outras mentes e separada da matéria. Ou você é uma alma encapsulada num corpo, separada do mundo e separada de outras almas. Ou você é uma massa, um conglomerado de partículas operando de acordo com as forças impessoais da física. (EISENSTEIN, 2013).

A visão de mundo ecológica

Assim como “o mundo como uma máquina” é a metáfora central do paradigma mecanicista, “o mundo como redes” ou “ecossistemas” é a metáfora central do paradigma ecológico que entende o mundo como um sistema vivo, ou como um sistema de sistemas (BENNE e MANG, 2015). A estrutura epistemológica da visão de mundo ecológica, ou sistêmica, pode ser entendida a partir de uma resposta às crenças da visão de mundo mecanicista listada na seção anterior. Para cada crença mecanicista, Sterling (2009) traz uma réplica de seu equivalente ecológico:

  1. Apreciação/Reestruturação: Algumas soluções apenas produzem mais problemas. Precisamos desenvolver “soluções que gerem mais soluções”. Esta prática também é chamada de “sinergias positivas”.
  2. Síntese: Frequentemente, é necessário olhar para o todo e para um contexto mais amplo.
  3. Holismo: Sistemas complexos mostram propriedades emergentes. Ou seja, qualidades adicionais que emergem da interação entre as partes. Por exemplo: saúde no corpo humano.
  4. Múltiplas influências no tempo e espaço: É necessário tentar olhar para todas as influências no “início”, todos os efeitos adversos no “final” e todo e qualquer feedback. Esta complexidade é característica da maioria dos sistemas humanos e ambientais.
  5. Integrativo: A maioria dos problemas e eventos estão relacionados com outros problemas e eventos e podem ser melhores entendidos a luz dessa realidade inter-relacionada.
  6. Extensão das fronteiras: Complexidade significa que precisamos expandir nossa visão de mundo e ser mais conscientes das fronteiras de preocupação que colocamos a nós mesmos.
  7. Subjetividade crítica: Os elementos chamados de opostos estão relacionados. Tendemos a valorizar um lado em detrimento do outro (ecologia contra a economia, natureza contra a cultura, valores contra os fatos, etc.), mas precisamos vê-los em suas relações em vez de oposições.
  8. Pluralismo/Dualidade: A decisão de tentar ser objetivo é um julgamento de valor. A objetividade total é impossível. É melhor reconhecermos como a subjetividade pessoal está envolvida na percepção e interpretação do mundo.
  9. Saberes racionais e não-racionais: O intelecto precisa ser equilibrado com a intuição, e a racionalidade com formas de saberes não-racionais, por exemplo, saberes estéticos e espirituais (equilibrar o lado esquerdo do cérebro com o direito).
  10. Incerteza, tolerância e ambiguidade: Nos sistemas humanos e nos naturais, ou seja, aqueles que não são mecânicos, é impossível prever os resultados. Precisamos ser mais flexíveis, aceitar a incerteza e não tentar controlar tudo, mas participar e aprender para a mudança.

A adoção de uma visão de mundo ecológica não implica o abandono irrestrito das concepções da visão de mundo mecanicista, mesmo se isso fosse possível. É questão de se enxergar este paradigma com um certo distanciamento, reconhecê-lo, para que, então, seja possível dominá-lo em vez de ser dominado por ele. Assim, podemos aplicar a abordagem cartesiana, mas apenas quando ela for apropriada para a situação (STERLING, 2009). Desta forma, o novo paradigma engloba o velho, mas a partir de uma outra lógica.

O desenvolvimento de uma sensibilidade ecológica, de um entendimento da interconectividade e da habilidade de projetar e agir de forma integrativa requer uma atenção especial às abordagens sistêmicas apresentadas na sistematização da visão de mundo ecológica. Para aprofundar neste conhecimento e modo de pensar, é preciso buscar as perguntas adequadas. Sterling (2009) sugere algumas:

  • Holístico: Como isso se relaciona com aquilo? Qual o contexto mais amplo aqui?
  • Crítico: Por que as coisas são dessa forma? A quem isso interessa?
  • Apreciativo: O que é bom e o que já funciona bem aqui?
  • Inclusivo: Quem ou o que está sendo ouvido, dado atenção e engajado?
  • Sistêmico: Quais são ou podem ser as consequências disso?
  • Criativo: Qual inovação pode ser necessária aqui?
  • Ético: Como isso deveria se relacionar com aquilo? O que é uma ação sábia? Como podemos trabalhar rumo ao bem-estar inclusivo de todo o sistema?

Síntese das duas visões de mundo

As duas formas de pensar e suas premissas podem ser sintetizadas e comparadas como mostrado no quadro abaixo.

Interser

A palavra interser descreve a mudança em direção a uma nova história sobre a relação humana com a comunidade de vida mais ampla e sua dependência dos sistemas que suportam a vida no planeta. De muitas maneiras, a palavra interser descreve a mudança de percepção do eu e do outro que reflete em uma mudança na sociedade do crescimento industrial, baseada na extração e exploração dos recursos naturais e informada pela “narrativa da separação”, para uma sociedade que sustenta a vida, baseada em processos regenerativos de agricultura e indústria informados pela “narrativa do interser” (WAHL, 2016). Thich Nhat Hanh nos oferece um ótimo exemplo de como ver e entender os sistemas sob esta perspectiva:

Se você é um poeta, você verá claramente que existe uma nuvem dentro desta folha de papel. Sem a nuvem, não haverá chuva; sem chuva, as árvores não podem crescer; e sem árvores, não podemos fazer papel. A nuvem é essencial para o papel existir. Se a nuvem não está aqui a folha de papel também não está. Então podemos dizer que a nuvem e o papel inter-são. ‘Interser’ é uma palavra que não está no dicionário ainda, mas se combinarmos o prefixo ‘inter’ com o verbo ‘ser’, nós temos um novo verbo, inter-ser. Sem a nuvem não podemos ter papel, então podemos dizer que a nuvem e o papel inter-são. […] ‘Ser’ é interser. Você não pode apenas ser por você mesmo. Você precisa inter-ser com todas as outras coisas. Esta folha de papel é por que todas as outras são. (HANH, 1988 apud WAHL, 2016, p. 86).

Eisenstein (2013) define a história do interser como uma que reconhece: (1) que o meu ser participa do seu ser e de todos os seres. Isso vai além da interdependência – a nossa própria existência é relacional; (2) que, portanto, o que nós fazemos ao outro, fazemos a nós mesmos; e (3) que a humanidade é destinada a se juntar completamente à tribo de toda a vida na Terra, oferecendo nossas dádivas humanas únicas para o bem-estar e o desenvolvimento do todo.

Perguntas para o surgimento de uma nova história

Wahl (2016) oferece algumas perguntas capazes de catalisar diálogos sobre esta mudança em grupos de comunidades, reunião de negócios e departamentos governamentais:

  • Até que ponto a forma como estamos concebendo o problema e propondo soluções é informada pela “narrativa da separação” e como poderíamos reformulá-las a partir da “narrativa do interser”?
  • Como as nossas necessidades reais e percebidas mudam à medida em que mudamos de uma perspectiva da separação para uma perspectiva do interser?
  • Como podemos propor soluções informadas pelo interser e avaliar seus efeitos na comunidade ampla de vida e nas vidas das futuras gerações?

Referências

BENNE, B.; MANG, P. Working regeneratively across scales — insights from nature applied to the built environment. Journal of Cleaner Production, 2015.

DU PLESSIS, C; BRANDON, P. An ecological worldview as basis for a regenerative sustainability paradigm for the built environment. Journal of Cleaner Production, 2015.

EISENSTEIN, C. The More Beautiful World Our Hearts Know Is Possible. North Atlantic Books, 2013.

HES, D.; DU PLESSIS, C. Designing for Hope: Pathways to Regenerative Sustainability. Earthscan, 2015.

STERLING, S. et al. The Handbook of Sustainability Literacy: Skills for a Changing World. Green Books, 2009.

WAHL, D. C. Designing Regenerative Cultures. Triarchy Press, 2016.

 


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Posted by Felipe Tavares

Trabalho para conciliar o desenvolvimento social com a inteligência dos sistemas vivos. Acredito que a sustentabilidade começa com uma mudança de pensamento e não de técnicas.

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