Como as mudanças acontecem?

Como as mudanças acontecem?

Somos ignorantes quanto a natureza dos processos de mudança. Diante a urgência de mudar cenários sociais negligenciamos a complexidade do mundo e do ser humano. O resultado disso é que priorizamos pelo que lutar em relação ao como lutar. Inevitavelmente, reproduzimos comportamentos que criam resultados diferentes dos que pretendíamos. Como sair dessa cilada? Entender como as mudanças pessoais e sociais acontecem é o primeiro passo.

Este é o quinto texto de uma sequência de cinco artigos que nos convoca a assumir o papel de ativistas radicais a serviço da construção de um mundo possível. A sequência é: Nós somos aqueles por quem esperávamos, O paradoxo do ativismo conservador, O ativismo radical, Como vemos o mundo? e Como as mudanças acontecem?. Acompanhe e assuma a sua identidade enquanto agente de transformação neste mundo em transição.

O que está por trás dos feitos revolucionários?

Existe uma ignorância total sobre os processos de mudança. Endeusamos líderes responsabilizando-os pelo sucesso ou fracasso das viradas históricas. No contexto das revoluções o grande público fica sabendo de apenas 1% do processo revolucionário: o enfrentamento direto (Barter, 2016). Mas a mudança social acontece através de um processo de construção coletiva e prática contínua dos valores que orientam a transformação pretendida. Este trabalho demorado e árduo permanece invisível.

A invisibilidade do que está por trás dos feitos revolucionários cria um dilema coletivo. Não temos noção de como as mudanças sociais são feitas e, assim, acreditamos ter menos capacidade do que pensamos ser necessária para realizá-las (Barter, 2016). Por isso, quando o chamado ao engajamento bate à nossa porta assumimos que não gostamos de como o mundo está, mas acreditamos que não somos capazes de mudá-lo. Como resultado terceirizamos a mudança.

Quando muito, diante do que não gostamos e que nos afeta diretamente, vamos para a rua. Obviamente, ir para a rua é importante. As ações de boicote e enfrentamento são as que evitam ou adiam a ameaça de direitos e à própria vida. É fundamental que lembremo-nos que carregamos o poder de auto-organização e manifestação coletiva, mas que também não nos esqueçamos que as ações de protesto equivalem a muito pouco do esforço necessário para transformar um contexto social (Barter, 2016).

Além do enfrentamento direto, como podemos atuar ativamente na mudança social? Para nos aproximarmos da resposta para essa pergunta precisamos entender um pouco sobre a natureza dos processos de mudança.

A natureza da mudança

O desenvolvimento é natural aos sistemas vivos e a única constante é a mudança. Nada persiste ao longo do tempo e espaço. Tudo se transforma a fim de realizar-se através de um potencial de ordem superior.

A complexificação das trocas entre os elementos de um sistema leva à criação de uma teia emaranhada de relações que faz surgir novos elementos, novos relacionamentos e, consequentemente, novos sistemas. Com a mudança dos sistemas, os elementos e suas relações mudam. E com a mudança dos elementos e suas relações, os sistemas se transformam.

Quando mudamos a maneira de nos relacionar com a natureza, por exemplo, ela muda a maneira de se relacionar conosco. O mundo natural e o mundo social não são passivos diante nossa atuação. Ao contrário, eles são responsivos em relação à nossa intervenção. A natureza e a cultura são ativas ao nos propiciar um modo de ser que nos muda (Kaplan e Davidoff, 2014). A mudança envolve reciprocidade.

A realidade é relacionamento e são a qualidade e intensidade das relações que fazem emergir potenciais antes desconhecidos. Assim, a transformação das relações é a própria essência dos processos de mudança biológica e social. Mudança significa transformação de relações. Nesse sentido, as relações visíveis e invisíveis são tanto o meio quanto o fim do ativismo para a transformação (Kaplan e Davidoff, 2014).

Quando intervimos em comunidades e organizações, cada mudança que está tendo lugar em determinado momento acontece junto a outras mudanças. Cada pessoa é, ao mesmo tempo, uma causa e um efeito da mudança de outros sujeitos.

Quando uma pessoa vê o mundo de um jeito diferente, o mundo se torna diferente. E aquele que o viu diferente muda na medida em que o mundo mudou. O mundo se transforma através da transformação do nosso modo de ver. E, assim, nós nos transformamos através das mudanças do mundo (Kaplan e Davidoff, 2014). Ou seja, quando algo muda, tudo muda. A mudança envolve simultaneidade.

O processo da mudança não pertence, portanto, a uma pessoa ou lugar. Ele está em todo o tempo e em todo o lugar tocando todos os sujeitos e contextos envolvidos. Ele não pertence a um protagonista.  

Os processos de mudança e a complexidade do ser humano

Mas, apesar da inevitabilidade da mudança e da aceitação dela como uma dinâmica inerente ao funcionamento da vida, ninguém quer se mudado. Todos querem mudar o outro, mas ninguém quer ser mudado pelo outro. A mudança, no contexto do ser humano, têm nuances delicadas.

Quando percebemos que existe uma tentativa de o outro nos mudar nos fechamos para a mudança. Inevitavelmente nos sentimos desrespeitados e invadidos. Isso acontece porque o ser humano tem um desejo visceral de ser aceito e amado porque essa aceitação e amor incondicionais são o que nos faz acreditar sermos capazes de manter vínculos (Brown, 2016). Manter e sustentar vínculos reflete a essência da natureza social da humanidade.

Ser aceito e estar vinculado a outros seres humanos é a motivação mais fundamental de uma pessoa. Portanto, quando não nos sentimos aceitos automaticamente sentimos a quebra de um vínculo e experimentamos uma sensação de ilegitimidade (Brown, 2016). Naturalmente, reagimos a isso bloqueando o processo da mudança e nos protegendo contra esse impulso – que nos soa ofensivo – do outro.

Sempre que alguém demonstra ou nutre secretamente a motivação de nos transformar, convencer, coagir ou manipular tendemos a ativar mecanismos de defesa. Neste momento, a guerra está anunciada e a conexão e o vínculo derrotados.

Como, então, estimular transformações pessoais e promover mudanças sociais levando em conta a complexidade da natureza humana?

A mudança é possível através do envolvimento e não da imposição. Não é tentando mudar diretamente o mundo ou uma parte dele que conseguiremos intervir em direção à realização dos nossos valores. Transformamos o mundo prestando atenção em como ele se expressa. Tentamos envolvê-lo em um diálogo consigo para que ele revele-se a si mesmo e, assim, mude por se enxergar de uma maneira diferente.

Com as pessoas o mesmo acontece. Não contribuímos para a mudança de alguém quando queremos transformá-la em nosso próprio benefício, mas quando temos uma intenção genuína de que ela se torne melhor para si mesma. Fazemos isso ao ajudá-la a se ver e se conhecer oferecendo-lhe feedbacks através do nosso olhar atento e escuta profunda e não a partir de nossas convicções pessoais.

Em outras palavras, fazemos a mudança acontecer encorajando a arte da conversa à medida que colocamos o mundo para conversar com ele mesmo, as pessoas que queremos transformar com elas mesmas, e nós conosco (Kaplan e Davidoff, 2014).

No entanto, geralmente sabotamos a possibilidade de mudança porque chegamos diante do contexto que queremos transformar como o expert que sabe como planejar uma intervenção para atingir determinadas metas. A postura de “sei o que estou fazendo”, “sei aonde quero chegar” e “estou no controle” é o segredo para fracassar os processos de mudança pessoal e social.

Se a mudança acontece através da conversa, ela não se dá através de uma única ação ou de um único alguém. Ela acontece nas relações entre os membros de um “todo” e não em suas “partes”. O futuro transformado emerge a partir do modo como se atua no presente, isto é, da qualidade da presença que se é capaz de sustentar e da forma como se vê as coisas.

Diferente de quando entramos em uma relação, comunidade ou paisagem obstinados em mudar algo, a magia da transformação acontece quando entramos nesses contextos com uma abordagem que sustenta abertura para aprender mais sobre si, sobre o outro e sobre o contexto.

Isso acontece quando aceitamos a contradição entre “ter a intenção clara de fazer a mudança emergir” e “assumir que não sabemos exatamente qual a mudança a ser feita”. Sustentar essa contradição envolve manter-se, simultaneamente, intencionado e aberto.

A consciência auto-reflexiva é o que nos permite estar no mundo como seres intencionais que podem sustentar, ao mesmo tempo, o desejo de mudar o mundo e a abertura para ser mudado pelo mundo (Kaplan e Davidoff, 2014).

Como queremos lutar?

É o nosso desespero com o estado das coisas que faz com que tentemos mudá-las a todo custo. A revolta, o desespero e a urgência diante a possibilidade de uma vida em sociedade mais alinhada com nossos valores nos leva a querer salvar o mundo. Passamos a ser movidos por um sentido de necessidade e paixão.

Esse é o cenário que camufla nossa potencial ruína. No sentido de urgência, revolta e paixão jaz o conservadorismo, instrumentalismo e mecanicismo em potenciais. A ironia é que sem o sentido de urgência e revolta e sem a paixão utópica facilmente caímos na cilada da apatia e da terceirização das intervenções que nos cabem.

O nosso desafio é duplo. Por um lado, não podemos relegar nossas convicções aceitando um mundo insustentavelmente injusto e sucumbindo a ele, pois isso deixaria o campo aberto para quem vê as questões sociais e ecológicas como problemas mecânicos a serem consertados e não como momentos desafiadores na evolução de nossa humanidade. Por outro lado, não podemos deixar que nossa urgência e revolta nos enrijeçam dentro de nossas convicções, nos feche às experiências e nos leve a criar adversários (Kaplan e Davidoff, 2014).

Esse paradoxo, ativismo e conservadorismo, é o cerne da humanidade. A luta por um futuro melhor é a própria essência de ser humano. É preciso sensibilidade para perceber a virada da intervenção revolucionária para a ação reacionária e conservadora. Essa sensibilidade é uma competência do “reino do sentir” própria da condição humana e sua consciência auto-reflexiva. Portanto, para além do motivo pelo qual vamos lutar, o desafio e a potência humana sempre estarão em como queremos lutar.

Referências

Allan Kaplan e Sue Davidoff (2014). O Ativismo Delicado. The Proteus Initiative.

Bené Brown (2016). A coragem de ser imperfeito. Editora Sextante.

Dominic Barter (2016). Cocriando o mundo. Canal Viva melhor.

Dominic Barter (2016). Para fazer bonito. Canal Viva melhor.

Dominic Barter (2016). Processos. Canal Viva melhor.

Dominic Barter (2016). Diálogo com a escola e a justiça. Canal Viva melhor.

Dominic Barter (2016). A Não-violência assume a vida. Canal Viva melhor.

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre educação e cura trabalho para a emergência de culturas regenerativas que promovam saúde pessoal e planetária.

2 comments

Oi Ju, gratidão pelo texto! Cheguei à casa cansado, do trabalho em si e depois de ter que colocar palha para dentro do terreno onde é feita a compostagem no Quintal comunitário. Pedi 3 m3 e vieram 12!!!
Queria dormir, mas vi o texto. Deixei aberto, pois algo em mim sabia que não seria um texto qualquer e teria que lê-lo com calma, com alma.
Já me preparava para agradecer ao Felipe quando li as palavras “qualidade da presença”! Corri o texto e lá estava confirmado, autoria da minha querida amiga, Ju Diniz.
Muitas verdades e reflexões, aplicáveis a diversos contextos: intra e interpessoal, sistêmico. Eu ficaria com a frase “como queremos lutar”, mas fico mesmo com a qualidade da presença, determinante em toda situação.
Um grande abraço!

Juliana Diniz

Jaylei querido, que ótimo receber seu feedback. Esse é um tema que mexe comigo também. É tarefa de “gente grande” assumir que além das boas intenções e busca por um mundo melhor há um tremendo trabalho a ser feito: o de sustentar a presença/atenção de qualidade e construir coerência interna. Nós aceitamos o desafio né?! Então vamos lá! Abraços!

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