Acordar a gratidão

“Nós temos que ter coragem de ser radicalmente vivos. E não negociar sobrevivência.”  — Ailton Krenak

Qual o lugar da apreciação, da gratidão e da celebração nas nossas vidas? Existir neste contexto planetário e tempo histórico é um motivo suficiente pelo qual sermos gratos?

A palavra “gratidão” se tornou recorrente nas nossas interações. Às vezes ela até pode soar piegas, um vício verbal new age esvaziado de significado.

Com a Ecologia Profunda e o trabalho da Joanna Macy, essa palavra ganhou um sentido diferente e muito potente pra mim.

Joanna desenvolveu uma metodologia que se chama Trabalho Que Reconecta. Pode-se dizer que o TQR é a prática sensível do arcabouço teórico da Ecologia Profunda. Ele foi desenhado para cuidar das dores do ativismo e inspirar uma ação no mundo compassiva e apaixonada. Tem quatro principais etapas: acordar a gratidão, honrar a dor, ver com novos olhos e seguir andando.

No treinamento em TQR que aconteceu no ano passado pela primeira vez no Brasil, enquanto atravessamos a primeira etapa, me perguntei se as pessoas que viveram graves experiências de dor e foram profundamente traumatizadas são capazes de ser gratas pela vida. E a resposta que encontrei foi que sim. Todas as pessoas têm ao menos um motivo para sentir gratidão.

Estar vivo basta! Participar da existência e ser um meio de expressão da vida é um motivo suficiente, grandioso e intransferível para agradecer e celebrar.

Acordar a gratidão como um primeiro passo na jornada ativista é desenvolver o principal recurso interno que nos garantirá resiliência quando estivermos atravessando a dor pelo mundo que nos invade na medida em que se intensificam a violência estrutural, ameaça de guerras, intoxicação dos ecossistemas etc.

Mais tarde eu descobri que as práticas de apreciação, gratidão e celebração são a fase zero da ritualística de muitas tradições espirituais: do budismo tibetano aos povos originários.

As cosmovisões indígenas, guardiãs da memória biocultural da humanidade e estrelas-guia para um outro mundo possível, nos inspiram à abertura ao invés de fechamento, ao engajamento ao invés de separação, à recuperar o senso de assombro e renunciar ao controle e previsibilidade. A abertura, o engajamento e o assombro são subprodutos da capacidade de se espantar e admirar a vida, momento a momento.

Do assombro diante à vida nasce vulnerabilidade e também a força e a sabedoria que nos permitem ouvir como a vida deseja que participemos dela.

O trabalho do IDR está comprometido em acordar essas capacidades e criar as condições para que as pessoas se apaixonem pela vida. Se apaixonar pela vida é um pré-requisito para operar a partir da sua inteligência e a serviço da regeneração.

Que possamos ver a vida como um desdobramento sagrado da evolução cósmica e planetária. Que possamos tomar a vida como um feito milagroso e não como uma causalidade aleatória, obviedade ou direito pré-adquirido. Que possamos nos espantar e nos encantar diante a possibilidade de existir neste mundo — com suas misérias e belezas.

“A vida não é para ser útil. Isso é uma besteira. A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade para ela. A vida é fruição. A vida é uma dança. Ela é uma dança cósmica e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária. […] Nós temos que ter coragem de ser radicalmente vivos. E não negociar sobrevivência.” — Ailton Krenak

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre desenvolvimento humano e a perspectiva evolucionária da Terra facilito processos de inovação social e mudança sistêmica que promovam saúde pessoal e planetária.
  
 

1 comentário

Nazia Pereira

Gratidão! Sempre gratidão!

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