Acordar a gratidão

“Nós temos que ter coragem de ser radicalmente vivos. E não negociar sobrevivência.” — Ailton Krenak

Qual o lugar da apreciação, da gratidão e da celebração nas nossas vidas? Existir neste contexto planetário e tempo histórico é um motivo suficiente pelo qual sermos gratos? 

A palavra “gratidão” se tornou recorrente nas nossas interações. Às vezes ela até pode soar piegas, um vício verbal new age esvaziado de significado. Com a Ecologia Profunda e o trabalho da Joanna Macy, essa palavra ganhou um sentido diferente e muito potente pra mim. 

Joanna desenvolveu uma metodologia, o Trabalho Que Reconecta, a serviço do despertar do senso de “eu ecológico”. Pode-se dizer que o TQR é a prática sensível do arcabouço teórico da Ecologia Profunda. Ela foi desenhada para cuidar das dores do ativismo e inspirar uma ação no mundo compassiva e apaixonada. Tem quatro principais etapas: acordar a gratidão, honrar a dor, ver com novos olhos e seguir adiante.

No treinamento em TQR que aconteceu no ano passado [2019] pela primeira vez no Brasil, enquanto atravessamos a primeira etapa, me perguntei se as pessoas que viveram graves experiências de dor e foram profundamente traumatizadas são capazes de ser gratas pela vida. 

E a resposta que encontrei foi que sim. Todas as pessoas têm ao menos um motivo suficiente para sentir gratidão. Estar vivo basta! Participar da existência e ser um meio de expressão da vida é um motivo grandioso e intransferível para agradecer e celebrar. 

Acordar a gratidão como um primeiro passo na jornada ativista é desenvolver o principal recurso interno que nos garantirá resiliência quando estivermos atravessando a dor pelo mundo que nos assola na medida em que se intensificam a violência estrutural, a ameaça de guerras civis, a intoxicação dos ecossistemas etc.

Mais tarde eu descobri que as práticas de apreciação, gratidão e celebração são a fase zero da ritualística de muitas tradições espirituais: dos povos originários aos orientais budistas. 

As cosmovisões indígenas, guardiãs da memória biocultural da humanidade e estrelas-guia para um outro mundo possível, nos inspiram à abertura ao invés de fechamento, ao engajamento ao invés de separação, à recuperar o senso de assombro e renunciar ao controle e previsibilidade. A abertura, o engajamento e o assombro são subprodutos da capacidade de se espantar e admirar a vida momento a momento. Espantar e admirar são gestos irmãos do apreciar e celebrar.

Do assombro diante à vida surge extrema vulnerabilidade… e também firmeza e sabedoria necessárias para escutar como a vida deseja que participemos dela.

O trabalho do IDR está comprometido em acordar essas capacidades e criar as condições para que as pessoas se apaixonem pela vida. Se apaixonar pela vida é um pré-requisito para operar a partir da sua inteligência e a serviço da regeneração.

Que possamos ver a vida como um desdobramento sagrado da evolução cósmica e planetária. Que possamos tomar a vida como um feito milagroso e não como uma causalidade aleatória, obviedade ou direito pré-adquirido. Que possamos nos espantar e nos encantar diante a possibilidade de existir neste mundo com suas misérias e belezas.

“A vida não é para ser útil. Isso é uma besteira. A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade para ela. A vida é fruição. A vida é uma dança. Ela é uma dança cósmica e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária. […] Nós temos que ter coragem de ser radicalmente vivos. E não negociar sobrevivência.” — Ailton Krenak

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre desenvolvimento humano e a perspectiva evolucionária da Terra facilito processos de inovação social e mudança sistêmica que promovam saúde pessoal e planetária.
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Nazia Pereira
Nazia Pereira
7 meses atrás

Gratidão! Sempre gratidão!