Uma nova visão histórica da Terra e da humanidade - instituto de desenvolvimento regenerativo

Uma nova visão histórica da Terra e da humanidade

O ritmo de vida instantâneo e egocentrado dos centros urbanos desconectou-nos de nossa história evolucionária enquanto espécie humana na Terra. Pouco sabemos sobre como chegamos a habitá-la e de sua história antes de nossa presença. Uma nova visão histórica que nos informe sobre o processo evolucionário da Terra e da consciência humana é fundamental para que possamos ter uma participação no mundo coerente com o nosso potencial humano e com a evolução de Gaia.

Cosmogênese, o universo como realidade emergente

O universo e a Terra são realidades em desenvolvimento. O universo e tudo que o compõe faz parte de um processo emergente. A história da Terra é uma longa sequência de eventos evolucionários que misturam a evolução de uma arquitetura genética e de recentes construções simbólicas desde que as comunidades humanas passaram habitar o planeta.

Do mesmo modo, os sistemas sociais não são uma realidade dada; constituem também um processo em constante evolução. À medida que atingimos níveis mais complexos de pensamento e uma percepção mais sensível do funcionamento da vida, estruturamos comunidades humanas a partir de sistemas sociais diferentes daqueles de antes que, por sua vez, começam a mostrarem-se obsoletos.

Uma das grandes inovações de nosso tempo é a capacidade de contar, a partir da observação empírica, a história do universo, da vida, da Terra e da humanidade. A nova ciência, representada pela física quântica, biologia molecular, ecologia profunda, pensamento sistêmico e complexidade etc., nos apresenta uma possibilidade inovadora de conhecermo-nos como humanidade enquanto consequência do processo evolucionário cósmico.

Isso é particularmente importante porque é a história do universo e o papel que a humanidade desempenha nele que nos oferece um sentido para a vida. E é esse sentido que, por sua vez, nos permite superar momentos de crise pessoal e social. É a história do universo, da vida, da Terra e da humanidade que tem servido de base para a iniciação ritual em todas as sociedades. É essa história que comunica os mistérios mais sagrados e que nos permite responder a questões primordiais como “quem sou eu?”, “de onde vim?”, “por que e para que existo?”.

Consciência humana, um desdobramento do processo evolucionário do cosmos

“Há razões para se acreditar que a Terra jamais foi tão resplandecente como no momento em que a consciência humana despertou no meio de infinita variedade de formas vivas nadando no mar, correndo sobre a terra ou voando pelo céu” (Thomas Berry, 1991, p. 23).

O ser humano, e a sua capacidade de consciência autorreflexiva, é um dos mais recentes milagres do universo. Ele é a expressão do próprio universo tomando consciência de si mesmo. Todavia, com o passar do tempo, a atuação da humanidade na comunidade de vida começou a ameaçar à vida e as condições propícias à vida na Terra. Desde o advento da agricultura, as comunidades humanas têm promovido, crescentemente, alterações significativas nos ambientes.

Tecnologias cada vez mais sofisticadas têm estado a serviço do aumento do volume e da velocidade de exploração dos recursos naturais que logo que são consumidos, são descartados. O sucesso e eficiência têm sido medidos pela nossa capacidade de acelerar esse processo. Aprisionados em um admirável mundo tecnológico, a filosofia do “explorar, consumir e descartar” tem sido a expressão do poder que nos foi dado de influenciar o funcionamento da vida.

O fato de agirmos extinguindo a vida e as condições propícias a vida à medida que intoxicamos a terra, as águas e o ar, evidencia que a humanidade sofre de alguma patologia que a impede de manter e aprimorar as condições propícias a sua própria sobrevivência. Essa patologia, entendida como um distúrbio profundo na consciência humana, está presente não apenas na atividade econômica, mas também nas tradições culturais e religiosas, nos sistemas de valores e na própria linguagem.

A intervenção humana, devido à maneira como temos destinado nossas técnicas e engenhosidade, não tem modificado apenas as estruturas e o funcionamento da sociedade, mas também a bioquímica, os ecossistemas e até mesmo a estrutura geológica do planeta. Não se trata apenas de uma mudança histórica ou cultural. Essas são modificações cuja natureza e dimensão jamais haviam ocorrido antes na história da humanidade e da Terra. As mudanças na estrutura física e bioquímica do planeta ativam, consequentemente, uma mudança na nossa consciência.

Crises, um convite para uma nova visão histórica

As crises que vivenciamos enquanto sociedade refletem momentos de mudança em que as histórias contadas e as respostas para as perguntas acima já não são mais capazes de atender às exigências de sobrevivência de uma situação presente. A nossa psique é instigada então a atingir novos níveis de compreensão sobre a realidade do mundo.

Até o final do século XX vigorou a história moderna marcada pelo controle científico do funcionamento do mundo natural e pela doutrina do progresso humano cuja expressão máxima se deu com a era industrial. No entanto, o desenvolvimento da condição humana a partir da intensificação dos processos industriais que deveriam nos levar a uma saúde pública jamais vista antes ameaça hoje a saúde planetária. Ironicamente, o resultado do esforço deliberado para o aperfeiçoamento da condição humana é o esgotamento dos sistemas vitais básicos do planeta que proporcionam nossa sobrevivência.

Essa ironia nos apresenta a necessidade de uma nova visão histórica que nos guie rumo a um futuro mais criativo. A emergência de uma nova narrativa histórica marcada por uma cultura de parceria e reconhecimento mútuo entre os sistemas vivos e as estruturas sociais é uma condição necessária para a regeneração da saúde planetária. A comunidade humana precisa se mostrar à altura da tarefa de reverter os danos causados pela sua progressiva derrubada de florestas, poluição atmosférica, alteração dos ciclos hidrológicos, erosão da biodiversidade etc.

O papel histórico das tradições nativas

Os povos nativos experimentam a existência através da intimidade com a comunidade de vida da Terra. Todavia, essa intimidade tem sido comprometida nos tempos modernos pelo sentimento de que os humanos estão por natureza impedidos de uma participação verdadeira na vida.

Nesse sentido, o papel histórico das tradições nativas é não apenas manter e ou atualizar suas tradições, mas “convocar todo o mundo chamado civilizado para retornar a um modo mais autentico de ser. […] Em sua mística tradicional da terra eles estão emergindo como um dos nossos guias mais seguros para um futuro viável” (Thomas Berry, 1991, p. 21).

Isso porque eles parecem ter uma orientação psíquica alinhada com a estrutura e o funcionamento da vida. Suas cosmologias, ao contrário da cosmovisão moderna, não os separaram da natureza, mas os orientam a uma participação apropriada em seus habitats.

A velha norma antropocêntrica versus uma nova norma biocêntrica

Foi porque perdemos o nosso sentido de presença, a nossa capacidade de reconhecer o caráter sagrado das paisagens e a capacidade de espanto diante delas, que a Terra se torna cada vez mais inóspita à presença do homem. Nesse sentido, mais do que planejar uma economia viável e se aprofundar no estudo da ecologia planetária, precisamos resgatar um sentimento de intimidade em relação à Terra e à vida. Isso diz respeito ao nascimento de um sentido de presença que nada tem a ver com a atitude de dominar, domesticar, abusar ou barganhar como estamos acostumados.

As regras não devem e não podem ser dadas pelos humanos se queremos prosperar na Terra. Ao invés de comandar, forçar e oprimir, devemos nos alinhar com as diretrizes da imensa comunidade da qual toda a vida depende. Nosso destino humano só poderá realizar-se integralmente em harmonia com o destino de toda a Terra.

A terra não é um objeto de um sonho humano, mas uma entidade própria com poderes intrínsecos. O ser humano é apenas parte do sonho da Terra. O sonho humano de um mundo viável é o próprio sonho da Terra, o desdobramento de uma vontade universal. A vontade do universo e a vontade da Terra devem governar as vontades humanas porque o bem estar humano só pode realizar-se com a garantia do bem estar do mundo que nos envolve. A saúde pessoal depende da saúde planetária.

À medida que constatamos que o nosso pretenso progresso para uma situação humana cada vez melhor através da exploração industrial tem nos feito criar no mundo um deserto ao invés de um paraíso temos o potencial de nos afastar de nosso antropocentrismo. Daí pode surgir uma nova norma biocêntrica que confere à natureza reconhecimento, participação e direitos nas tomadas de decisão humanas. Uma norma biocêntrica deve nascer como consequência da íntima relação entre todos os membros da comunidade de vida da Terra: os elementos geológicos, biológicos e humanos.

Para isso, precisamos nos conhecer no processo evolucionário do cosmos e do planeta. Devemos nos identificar com o processo cósmico que nos trouxe até aqui. Podemos fazer isso nos apresentando à Terra através de rituais de iniciação como praticam os povos originários tanto quanto fazendo da nova ciência um meio de criar intimidade com a vida.

“Nossa concepção científica do cosmo, quando traduzida na forma de uma história, assume o papel antigamente preenchido pelos mitos da criação. […] A ciência está hoje oferecendo algumas de nossas mais poderosas referências poéticas e expressões metafóricas. Os cientistas, de repente, se deram conta da magia da Terra e do universo” (Thomas Berry, 1991, p. 31).

O papel da nova ciência

Os nossos modos empíricos de conhecimento nos permitem ver com clareza desde os menores fragmentos de matéria até os imensos sistemas de galáxias. A pesquisa profunda sobre a estrutura e o funcionamento da vida pode ser uma expressão do nosso encantamento pelo mundo e um resgate da intimidade com a Terra.

A descoberta da Terra como um organismo vivo através da consciência humana, como se deu na elaboração da Teoria de Gaia, é expressão de um modo de presença no cosmos que demorou bilhões de anos para ser alcançado. O entendimento do planeta como uma única realidade orgânica com qualidades físicas e espirituais nos leva à confirmação recíproca entre os insights míticos e as percepções científicas atuais.

É o nosso fascínio pela Terra como realidade viva a condição necessária para reinventar o humano como espécie e reinventar a ética e política em relação à natureza. Os povos nativos, de modo intuitivo, reconhecem o ser humano como mais uma espécie da comunidade de vida. Nós devemos agora reconhecer-nos como tal de modo deliberado. Como organismo vivo, a Terra nos convida a voltar a ela como sendo Terra, como parte da expressão de sua vontade.

Como realidade viva, ela é autodirigida. E nós, enquanto uma de suas expressões, devemos escutar o que ela nos diz. Não devemos pensar que somos os únicos a determinar o curso dos acontecimentos. Para que possamos participar da vida aproveitando todo o nosso potencial humano devemos nos apropriar de nossa autoridade e responsabilidade enquanto expressões conscientes do cosmos, enquanto a última – e apenas a última – inovação da Terra. A expressão de nossas individualidades, através do nosso papel gerador de valor no todo, deve ser uma das formas de celebração do universo.

Referências

Thomas Berry. O sonho da Terra. Vozes, 1991.

 

Este texto foi inspirado no livro O sonho da Terra de Thomas Berry. As ideias contidas nele encontram-se quase integralmente ao longo de seus três primeiros capítulos. 

 


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Postado por Juliana Diniz

Por meio da união entre educação e cura trabalho para a emergência de culturas regenerativas que promovam saúde pessoal e planetária.

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