Uma abordagem ecológica para a regeneração em escala

A vida se organiza em sistemas dentro de sistemas. Tomar consciência e ganhar clareza deste padrão é crucial para que possamos pensar projetos capazes de realizar a transformação sistêmica que desejamos.

Os melhores guias de design para a regeneração são os princípios ecológicos. Um entendimento dos padrões fundamentais da natureza proporciona uma base sólida para a intervenção em ambientes socioecológicos de forma que é possível reestabelecer a harmonia que foi quebrada anteriormente pela aplicação dos princípios mecanicistas e pela simplificação dos sistemas vivos (BENNE e MANG, 2015). Este artigo explora três princípios ecológicos capazes de aumentar o entendimento de como é possível trabalhar o desenvolvimento regenerativo em escala.

A vida é estruturada em holarquias

Ao longo do mundo vivo encontram-se sistemas aninhados com sistemas maiores. Células são partes de tecidos, tecidos são partes de órgãos, órgãos partes de organismos e organismos vivos partes de ecossistemas e sistemas sociais.

Em cada nível, o sistema vivo é um todo integrado com componentes menores, enquanto ao mesmo tempo faz parte de um todo maior (Capra e Luisi, 2014). Esta estrutura integral aninhada inerente a todos os sistemas vivos é chamada de holarquia. Cada sistema que constitui o todo é chamado de holon, termo cunhado por Arthur Koestler, em 1967, no seu livro The Ghost in the Machine.

Fonte: Benne e Mang, 2015

Sistemas vivos são sistemas abertos que interagem e coevoluem com o seu ambiente. Estar aninhado significa que existe um interesse mútuo entre as diferentes escalas baseado nas energias que são trocadas entre os níveis de uma holarquia. Por causa da interdependência dinâmica e essencial das diferentes escalas ou holons, a saúde de um sistema em qualquer nível necessariamente influencia a saúde do todo. Se a saúde de uma escala do sistema entra em decadência, todo o sistema decai (Benne e Mang, 2015).

Pode-se ver essa  interdependência no corpo humano, onde cada nível do sistema continuamente troca energia com outros que são importantes ao funcionamento e saúde do indivíduo e do coletivo. Um problema no coração inevitavelmente afeta a saúde de todo o corpo. Uma doença no corpo impactará a saúde do coração. É possível trabalhar a saúde de todo o corpo cuidando da saúde do coração ou ajudar o coração ao trabalhar a saúde de todo o corpo, seja através de dieta, descanso, exercício e alívio de estresse. Entender a natureza específica desta interdependência em um sistema vivo é fundamental para pensar como pequenas intervenções podem alavancar um efeito regenerativo sistêmico.

Dada a natureza dos sistemas vivos, definir a holarquia em que um projeto está aninhado torna-se o primeiro passo essencial no processo de design regenerativo, seguido por um segundo passo, que é entender as relações dinâmicas e interdependentes entre as escalas, ou holons. Pelo fato das holarquias serem multivalentes, defini-las requer integrar múltiplas perspectivas, incluindo interpretações subjetivas e objetivas. Além do mais, ambos os passos requerem pensamento sistêmico para visualizar o trabalho do todo e os padrões naturais.

Dados provenientes de ferramentas de avaliações analíticas convencionais (isto é: análise de solo, estudos de engenharia, padrões de tráfego, estudos hidrológicos) é extraído como a base para identificar os padrões, entretanto, tais ferramentas podem ser prejudiciais para este trabalho inicial se o designer contar apenas com estes dados sem aplicar o pensamento sistêmico (Benne e Mang, 2015).

Holarquias podem ser estendidas de microrganismos ao planeta Terra e ao universo. Isto levanta a questão de quantos níveis precisam ser definidos e considerados em um projeto para habilitar um design regenerativo em escala. Na metodologia de um projeto pelo menos três níveis são mapeados e explorados baseados na premissa de que três é o mínimo necessário para visualizar o papel e potencial regenerativo de determinada iniciativa (Benne e Mang, 2015).

Pode-se entender estes níveis como três sistemas aninhados, sendo o mais interno referente ao projeto (ex. prédio, infraestrutura, planejamento regional); o intermediário é definido como sendo o “todo próximo”, que é um sistema vivo que se relaciona de forma próxima ao projeto, o “lugar” que se está inserido (ex. bairro, bacia hidrográfica); e o nível mais externo pode ser chamado de “todo amplo”, que é o sistema vivo no qual o “todo próximo” desempenha um papel (ex. cidade, biorregião) (Mang e Haggard, 2016).

A saúde integral de uma holarquia depende da capacidade de seus holons constituintes desempenharem seus papéis sistêmicos

Sistemas vivos são autogeridos e autopoieticos, ou seja, autogerativos. Estas capacidades dependem de seus subsistemas constituintes desempenharem um conjunto de papéis em uma relação recíproca e coevolucionária (Benne e Mang, 2015). Quando os órgãos de um sistema do corpo humano trabalham juntos, cada um desempenhando seu papel único, o sistema como um todo é capaz de desempenhar seu papel fundamental em relação aos outros sistemas para sustentar a saúde geral do corpo.

Este padrão recíproco de relações dentro e entre os diferentes holons nunca é estático. A medida que o corpo encontra ambientes e demandas diferentes, a sua habilidade de continuar a prosperar dependerá de todos os sistemas e subsistemas adaptarem seus papéis para harmonizar com cada novo equilíbrio dinâmico e com as necessidades gerais do corpo. Quando um sistema vivo desempenha seu papel sistêmico com sucesso, ele contribui para a sua própria viabilidade assim como para a integridade, vitalidade e viabilidade do sistema mais amplo de que depende (Benne e Mang, 2015).

A teoria dos sistemas vivos coloca que cada sistema vivo — seja ele uma pessoa, uma árvore ou um lugar — possui uma essência que é fonte de uma singularidade e que organiza o arranjo complexo de relacionamentos que fundamenta suas atividades, crescimento e evolução.

A teoria dos sistemas vivos também coloca que todo sistema vivo possui, baseado em sua essência, um potencial inerente em que ele está movendo a favor ou contra a depender do seu estado de integridade, vitalidade e saúde. Assim, temos que este potencial só pode ser visto e ser expressado integralmente no contexto dos sistemas aninhados de que faz parte.

O verdadeiro potencial do coração humano como um órgão, por exemplo, só pode ser entendido ao levar em consideração o papel específico que o coração desempenha no sistema circulatório. Este papel ganha mais importância quando descobrimos qual o papel que o corpo desempenha nos sistemas maiores em que está inserido. Entender as nuances e diferentes níveis do potencial é chave para permitir que o sistema evolua rumo a maiores níveis de ordem e complexidade.

Muitos lugares perderam a sua identidade característica e sua habilidade de desempenhar seus papéis como resultado de práticas mecanicistas de desenvolvimento. Neste contexto, um projeto é regenerativo na medida em que permite que o lugar possa preencher novamente seu papel dentro de uma holarquia.

Cada projeto começa com um conjunto de aspirações e ideias sobre seu valor potencial. O desenvolvimento regenerativo começa perguntando qual é o potencial do projeto em relação às características únicas do sistema maior em que é aninhado, e qual é o papel regenerativo através do qual pode contribuir para a integridade, vitalidade e viabilidade de seu sistema maior (Benne e Mang, 2015).

Neste sentido, o desenvolvimento regenerativo é um processo de design salutogênico, ou seja, tem como objetivo facilitar a emergência da saúde através das escalas para os sistemas humanos e naturais. O uso desta abordagem requer uma mudança crucial do pensamento orientado a projetos para um pensamento orientado ao lugar.

A vida se renova continuamente através de redes de troca metabólica

O metabolismo, ou seja, o fluxo e transformação incessante de energia, matéria e informação através de uma rede dinâmica e interconectada, é uma das características essenciais da vida. A rede metabólica de um sistema vivo é o que lhe permite manter, reparar e perpetuar a si mesmo.

Este padrão em rede conecta pontos nodais tanto dentro como através de diferentes escalas de uma holarquia. Entender o funcionamento deste padrão é chave para entender como as relações multidimensionais descritas no princípio anterior permite com que sistemas vivos se organizem e criem estruturas emergentes e padrões holárquicos (Benne e Mang, 2015).

Os nós, ou pontos nodais, são lugares onde os fluxos se cruzam e as trocas e transações são concentradas. A importância de um nó em uma rede vem da sua conectividade e do número e natureza das trocas que ele acolhe. Os nós que estão mais conectados geram uma qualidade e quantidade mais alta de trocas transformativas, tanto dentro como através das escalas, e são, portanto, mais importantes para a saúde da rede.

Lugares agregadores — como mercados, escolas e centros de referência — são importantes nós em um sistema pois organizam e orientam um grande fluxo de pessoas, matéria, energia e informação. Em ecossistemas as bordas são lugares de interesse especial pois é onde a vida tende a ser mais abundante; nestes ambientes é possível que comunidades de “dois mundos” coexistam e teçam relacionamentos. Assim, tem-se que as bordas são elementos poderosos na criação e suporte a “lugares vivos”.

Nós são pontos de alavancagem para a transformação sistêmica. Intervenções apropriadas em pontos nodais podem desencadear impactos positivos ou negativos através de uma holarquia. Este trabalho pode ser descrito como “acupuntura socioecológica” onde intervenções apropriadas em locais específicos podem alcançar efeitos sistêmicos desejados. A grande inovação desta abordagem vem da percepção de que os nós metabólicos, e não os fluxos, são os pontos de alavancagem mais poderosos onde mesmo pequenas intervenções podem influenciar a saúde e renovação de um todo socioecológico o nutrir e regenerar a sua capacidade inerente de auto organização (Benne e Mang, 2015).

Referências

BENNE, B.; MANG, P. Working regeneratively across scales—insights from nature. Journal of Cleaner Production, p. 42-52, 2015.

CAPRA, F.; LUISI, P. L. The Systems View of Life: A Unifying Vision. Cambridge University Press, 2014.

MANG, P; HAGGARD, B. Regenerative Development and Design: A Framework for Evolving Sustainability. Wiley, 2016.

 


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Posted by Felipe Tavares

Trabalho para conciliar o desenvolvimento social com a inteligência dos sistemas vivos. Acredito que a sustentabilidade começa com uma mudança de pensamento, e não de técnicas.

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