Fundamentos dos sistemas vivos - Instituto de Desenvolvimento Regenerativo IDR

Fundamentos dos sistemas vivos

Entender como os sistemas vivos funcionam é a base para o desenvolvimento regenerativo

Um entendimento claro dos princípios ecológicos é fundamental para a prática do desenvolvimento regenerativo. Estes conceitos orientarão tanto a maneira de se pensar e conduzir os processos de concepção e design, assim como guiarão as práticas e ações em campo. Tais princípios, em última análise, descrevem os padrões e processos pelos quais a natureza sustenta a vida. A seguir, de forma sucinta, começaremos a explorar os princípios ecológicos de redes, sistemas aninhados (holarquias), ciclos, fluxos, desenvolvimento e equilíbrio dinâmico.

Redes

O primeiro princípio é, talvez, o princípio ecológico mais difundido. As redes refletem o conhecimento de que todos os membros de uma comunidade ecológica são interligados em uma vasta e intricada rede de relacionamentos: a teia da vida (CAPRA et al., 2009). Assim, nenhum ser vivo existe por si só e tem a sua própria existência como uma propriedade emergente dos seus relacionamentos com todas as outras coisas, fundamentando, então, o conceito de interser. Ecologistas, na década de 1920, introduziram o conceito de cadeias tróficas e posteriormente de ecossistemas e, assim, difundiram a noção de relacionamentos e interdependência ecológica.

Sistemas aninhados

Os ecossistemas são formados por inúmeros sistemas aninhados entre si, sendo o próprio ecossistema aninhado a um sistema maior (BENNE e MANG, 2015). Esta estrutura de aninhamento, chamada de holarquia, é inerente a todos os sistemas vivos. Cada constituinte do sistema dentro do todo é chamado de holon. Existe, então, uma relação de reciprocidade: o holon constituinte influencia a saúde de sua holarquia assim como uma dada holarquia influencia a saúde de seus holons constituintes (BENNE e MANG, 2015). Embora os mesmos princípios básicos de organização operem em cada ponto da escala, os diferentes níveis de sistemas representam níveis de complexidade diferentes. Em cada nível, os fenômenos observados exibem propriedades que não existem nos níveis mais baixos (CAPRA et al., 2009). Os sistemas aninhados podem ser representados visualmente pelas tradicionais bonecas russas (matriosca), que se constituem de uma série de bonecas colocadas uma dentro da outra.

Nenhum ser vivo existe por si só, a existência de todos os seres é uma propriedade emergente dos seus relacionamentos com todos os elementos do mundo. Instituto de Desenvolvimento Regenerativo IDR

Ciclos

As interações entre os membros de uma comunidade ecológica ocorrem em ciclos fechados, ou seja, as trocas de energia e recursos se dão em ciclos ininterruptos onde os elementos são continuamente reciclados. Assim, os materiais e energia resultantes de um dado metabolismo servem como fonte de materiais e energia para o metabolismo de outra comunidade ecológica (CAPRA et al., 2009). Na natureza não existe lixo, e toda a energia gerada é utilizada para sustentar a comunidade de vida local. Os ciclos nutricionais de um ecossistema estão atrelados aos ciclos maiores de sua biorregião e da biosfera planetária. Os ciclos diários, lunares, as estações do ano, as idas e vindas de espécies migratórias, as correntes oceânicas e mais, estão todos ligados a rede planetária da vida. Estas diferenças sazonais – dia e noite, úmido e seco, quente e frio – somadas aos ciclos de crescimento e senescência das comunidades vivas, constituem o elo fundamental do desenvolvimento dos ecossistemas.

Fluxo

Por outro lado, os organismos vivos são sistemas abertos, assim, precisam se alimentar através de um fluxo ininterrupto de energia e recursos. O fluxo constante de energia – sendo a energia solar a principal e fonte de todas as demais – sustenta e dirige todos os ciclos ecológicos (CAPRA et al., 2009). Assim, um fluxo constante, ininterrupto, equilibrado e diverso de energia e matéria é fundamental para os ciclos metabólicos dos sistemas vivos que reciclam e transformam resíduos em recursos e desenvolvimento.

Desenvolvimento

Todos os sistemas vivos se desenvolvem e todo desenvolvimento envolve aprendizagem. O processo de desenvolvimento de um ecossistema é constituído por uma série de estágios sucessivos. Existe uma relação recíproca onde as espécies influenciam as características do ambiente e o ambiente, por sua vez, influencia a composição de espécies do local. Assim, uma comunidade pioneira, rústica e de rápido crescimento, ao influenciar positivamente o ambiente, será engajada em um processo de transformação ao passo que gradualmente dará lugar a uma comunidade ecológica mais desenvolvida, com ciclos mais lentos, deixando o ecossistema mais diverso e amplo, capaz de acolher uma maior diversidade e complexidade biológica. Assim, organismos e ambiente adaptam-se um ao outro e evoluem em conjunto. Em nível das espécies, desenvolvimento e aprendizagem se manifestam como o desdobramento criativo da vida no processo de evolução (CAPRA et al., 2009).

Equilíbrio dinâmico

Por fim, uma comunidade em equilíbrio perpétuo não é uma comunidade. Os sistemas vivos funcionam a partir de “círculos de retroalimentação”, ou feedback, de forma que a comunidade ecológica continuamente se autorregula e se auto-organiza (CAPRA et al., 2009). Distúrbio e resiliência são elementos fundamentais dos ecossistemas. Quando há um desequilíbrio, ocorre uma reorganização sistêmica a partir de flutuações interdependentes de variáveis informadas por um sistema de retroalimentação. Assim, obtém-se um equilíbrio dinâmico, que é a única forma de equilíbrio existente na natureza. Tem-se, então, que a flexibilidade é um aspecto importante da estabilidade ou resiliência de um ecossistema, da habilidade da comunidade para resistir a perturbações e se adaptar a mudanças (CAPRA et al., 2009).

Referências

CAPRA, F. et al. Ecoalfabetização: preparando o terreno. Learning in the Real World, 2000.

BENNE, B; MANG, P. Working regeneratively across scales—insights from nature. Journal of Cleaner Production, 2015.

 


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Postado por Felipe Tavares

Trabalho para conciliar o desenvolvimento social com a inteligência dos sistemas vivos. Acredito que a sustentabilidade começa com uma mudança de pensamento, e não de técnicas.

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