Entendendo o lugar como um sistema vivo IDR Instituto de Desenvolvimento Regenerativo

Entendendo o lugar como um sistema vivo

Ver os lugares como sistemas vivos nos faz perceber relações ocultas e pontos de intervenção poderosos

O desenvolvimento regenerativo tem como premissa básica o entendimento do lugar a partir de uma visão sistêmica. Nicholas Mang (2009), em seu trabalho The Rediscovery of Place and Our Human Role Within It, traz uma importante contribuição ao definir o fenômeno “lugar” a partir de uma visão dos sistemas vivos.

A resposta para a pergunta “O que é o lugar?” foi sintetizada em seis atributos distintos. São eles: (1) Interconectado e aninhado, (2) Delimitado e único em sua identidade, (3) Agregador de valor, (4) Concentrador e enriquecedor, (5) Magnético e ordenador e (6) Dinâmico e evolucionário.

Juntos, estes seis atributos ajudam a identificar e definir o que é o lugar, assim como oferecem um meio para avaliar o grau de saúde, equilíbrio e integração do lugar como um fenômeno vivo.

Interconectado e aninhado

O fenômeno “lugar” ocorre em todos os níveis de existência, do microscópico ao cósmico, assim, é um sistema aninhado. Uma casa existe em um bairro, que existe dentro de uma comunidade, que existe dentro de uma biorregião e assim por diante. Neste sentido, nenhum lugar está isolado, mas está necessariamente interconectado com outros lugares. Um lugar é identificado pela sua locação espacial, e cada lugar é caracterizado pela especificidade de suas relações com os outros lugares, tanto espacialmente quanto como um “todo” aninhado. Desta forma, temos que um dos maiores atributos que um lugar possui é estar sempre interconectado por um sistema espacial de interações e transferências com outros lugares (MANG, 2009).

Delimitado e único em sua identidade

Enquanto os lugares são interconectados, eles também são delimitados e únicos. O geógrafo Yi-Fu Tuan (1977 apud MANG, 2009) argumenta que um espaço é transformado em lugar assim que este recebe definição e sentido. Desta forma, quando um espaço se torna uma região provida de sentido e delimitada, tanto fisicamente quanto no imaginário, torna-se também um lugar com peculiaridades que o diferencia de outras unidades semelhantes. As fronteiras ajudam a definir a identidade do lugar, o que é e o que não é. Segundo o geógrafo Edward Relph (1976), tem-se que:

A essência do lugar reside… na experiência de um ‘dentro’ que é diferente de um ‘fora’; mais do que qualquer outra coisa isso é o que diferencia o lugar do espaço e define um sistema particular de características físicas, atividades e sentidos. Estar dentro de um lugar é pertencer a ele e se identificar com ele, e quanto mais profundamente você está dentro deste lugar, mais forte é esta identidade com ele. (RELPH, 1976 apud MANG, 2009, p. 10)

Na ecologia, as bordas naturais entre diferentes ecossistemas são onde a vida tende a ser mais abundante; nestes ambientes é possível que comunidades de “dois mundos” coexistam e teçam relacionamentos. Assim, tem-se que as bordas são elementos poderosos na criação e suporte a “lugares vivos”. Na definição do que é e do que não é, existe uma borda contrastante que cria possibilidades para uma maior vitalidade de interações (MANG, 2009).

Agregador de valor

A ecologia ensina que cada espécie possui e desempenha um papel específico no ecossistema a que está inserida. Este princípio é chamado de nicho e pode ser definido como “o habitat que uma espécie necessita para sobreviver… [assim como] o papel ecológico de um organismo em uma comunidade” (CHASE e LIEBOLD, 2003 apud MANG, 2009, p. 11).

“Criar lugar é situar a si mesmo dentro do todo, é achar o seu lugar dentro do lugar”

O lugar como um fenômeno, portanto, pode dizer respeito à posição de uma entidade dentro do sistema em que está inserida e ao seu papel agregador de valor dentro daquele sistema. Desta forma, “achar o seu papel” em um lugar envolve corresponder as capacidades inerentes do indivíduo (nicho fundamental) com as necessidades e oportunidades que existem no sistema maior (nicho realizado) (MANG, 2009). Assim, é estabelecida uma relação mutuamente benéfica, ou sinergicamente positiva, capaz de gerar valor e conduzir o sistema a níveis mais altos de diversidade e estabilidade.

Concentrador e enriquecedor

Lugares são entidades concentradoras que organizam e ordenam o espaço em um ambiente rico de sentido e valor. Lugares são específicos, e não abstratos. São localizados, e não generalizados (MANG, 2009). Na ecologia, os ecossistemas tornam-se cada vez mais multidimensionais e ricos para que a vida possa ocorrer à medida que maiores números e ordens de nichos são formados (CHASE e LIEBOLD, 2003 apud MANG, 2009). Neste processo, os nichos tornam-se cada vez mais como miniaturas perante os sistemas maiores e, ainda assim, são cada vez mais grandiosos e ricos na sua capacidade de suportar a biodiversidade e infinidade de formas de relacionamentos (MANG, 2009).

Magnético e ordenador

Cada lugar possui uma ambiência própria e transmite um sentimento específico que o distingue de outros lugares. Este efeito orienta o ritmo e as emoções da vida neste lugar. Assim, cada lugar organiza e ordena as interações e inter-relações energéticas que ocorrem nele de forma a criar uma natureza particular de conexão entre os diversos elementos e uma experiência do todo (MANG, 2009). Alguns lugares, devido a inter-relações que os rodeiam, tornam-se centros de referência mais fortes do que outros:

De forma simples, um centro é qualquer forma de concentração espacial ou foco organizado ou lugar de um padrão ou atividade mais intensa… Qualquer que seja sua natureza e escala particular, um centro é uma região de ordem física (e às vezes experiencial) mais intensa que proporciona uma intensa relação entre as coisas, situações e eventos. (ALEXANDER, 2002 apud MANG, 2009, p. 13)

Os centros mais fortes juntam os que estão separados e fornecem para todas as partes um lugar para pertencer. Lugares assim podem ser descritos como “centros magnéticos de ressonância”, ou “centros de valor sentido”. Diferentes lugares funcionam como ímãs de diferentes qualidades de estilo de vida, valores e experiência (MANG, 2009).

Dinâmico e evolucionário

Lugares, como todos os sistemas vivos, são dinâmicos e evolucionários. Nenhum lugar permanece o mesmo através do tempo, respeitando a impermanência de todas as coisas. Um dos atributos centrais do lugar é o seu processo contínuo de emergência e capacidade de “tornar-se” algo, ou de caminhar rumo a algum estado dinâmico particular de existência. Neste sentido, o lugar pode ser descrito como um continuum evolucionário de inter-relações e experiências que estão continuamente em fluxo (MANG, 2009).

Apesar da contínua mudança que o lugar sofre, existe também um continuum coeso e organizador que ajuda a ordenar esta mudança para um potencial de evolução coerente. Lugares, como os sistemas vivos, podem crescer e evoluir para ordens cada vez mais complexas de inter-relacionamentos e riqueza de diversidade. Diferentes locais, em diferentes condições, evoluirão para diferentes ordenamentos. Na teoria dos sistemas complexos isto é definido como um estado de atração, ou atrator.

Lucas (2006 apud MANG, 2009, p. 14) define um atrator como sendo “uma posição preferencial do sistema, de tal forma que se o sistema iniciar em outro estado, ele evoluirá até chegar ao atrator, e permanecerá assim na ausência de outros fatores”. Duas florestas, devido aos seus lugares únicos no mundo, evoluirão rumo a estados atratores bastante distintos. Os lugares, como pontos de atração ou atratores, são agentes evolucionários ao passo que se tornam pontos dentro de um sistema maior em que nova vida e novos padrões de existência possam emergir (MANG, 2009).

Referências

MANG, N. The rediscovery of place and our human role within it. 2009.

 


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Postado por Felipe Tavares

Trabalho para conciliar o desenvolvimento social com a inteligência dos sistemas vivos. Acredito que a sustentabilidade começa com uma mudança de pensamento, e não de técnicas.

2 comentários

Oi Felipe, fiz algumas dimensões do Gaia com a Juliana.
Deixo um pensamento meu sobre a vitalidade maior de interações nas bordas. Essas interações não são, necessariamente, boas, afinal espécies podem ser extintas nas bordas. Para essa espécie a interação foi péssima.
Sim, para a diversidade e evolução está tudo bem, mas o que pontuo é que temos, eu tenho, a ideia de que toda interação, toda a abundância é positiva, no sentido de favorecer a todos. Na natureza não é assim.
O que achas?

Felipe Tavares

Olá, Jaylei. Obrigado pela reflexão.

As bordas são locais onde diferentes realidades se sobrepõem permitindo a existência de um maior número de nichos, ou papéis específicos, a serem desempenhados em um sistema.

Sistemas vivos são complexos e agem de forma não-linear, assim há espaço pra saúde e doença, coesão e dispersão, abundância e escassez… tudo em um mesmo lugar.

Concordo que nem toda interação é positiva. E ressalto que essa análise assume a perspectiva de um dado holon, uma ordem particular do sistema, um todo dentro de um todo maior.

Uma relação “negativa” em uma dada ordem pode refletir em algo positivo em outra. Claro que essa é apenas uma das muitas possibilidades. E concordo com a sua visão de não generalizar as relações.

Abraço.

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