Coronavírus e o futuro em disputa

03/04/2020

Bem-vindos à intimidade latente do colapso global

Já está claro que o mundo não será o mesmo. A cultura, as instituições e as pessoas estão sendo profundamente afetadas. A pandemia nos atravessa e não há dúvidas que sairemos diferentes. Nos resta saber, agora, se sairemos seres humanos melhores ou piores.

Neste texto eu exploro o não saber e a incerteza, a necessidade de honrar a dor e não correr para saídas rápidas, o luto coletivo, o surgimento de uma nova janela de possibilidades, o futuro em disputa, a inteligência cega, o risco do totalitarismo e a mentalidade da guerra, a imaginação, a geração de sentido, o interser e futuros possíveis.

Estamos em crise e estamos em um ponto de inflexão.

Entramos em convulsão social. Isso escancara os nossos medos e incertezas, e revela o melhor e o pior de nós. Pessoas de todos os cantos estão recolhidas em suas casas, o sistema de saúde colapsou, a economia parou, linhas de abastecimento foram interrompidas e líderes de todo o mundo não sabem o que fazer. Bem-vindos à intimidade latente do colapso global.

Estamos presenciando cenas de egoísmo dirigidas pelo medo e apatia, e também cenas de compaixão e entrega orientadas pelo bem comum. Estamos em crise e estamos em um ponto de inflexão — um momento histórico que marca uma ruptura nas estruturas e acordos vigentes e nos coloca em um lugar de disputa do futuro que teremos. Há um consenso de que já não seremos os mesmos.

Todo aspecto da vida humana carregará consigo um pouco deste momento. Isso nos coloca em um lugar de ansiedade e urgência para entender o fenômeno e antecipar os seus impactos duradouros. Mas é difícil ter clareza sobre acontecimentos complexos em tempo real especialmente quando eles nos atravessam com tantas nuances e pressões físicas e psicológicas.

Eu não sei quais serão os impactos duradouros deste fenômeno — e não há mesmo como saber. Mas precisamos agir com urgência mesmo sem conhecimento suficiente. E precisamos, tão quanto, de calma e discernimento.

Neste momento é importante evitar soluções apressadas pois estas tecem os problemas junto à solução.

A primeira reflexão que faço é sobre a importância de desacelerar. Não estou falando sobre as medidas emergenciais de contenção da pandemia, e sim das reflexões existenciais sobre qual sociedade queremos cultivar — o que informará diretamente as nossas ações coletivas e individuais nos anos que virão. Neste momento é importante evitar respostas apressadas pois estas tecem os problemas junto à solução.

É crucial não cairmos na armadilha do turbilhão de pensamentos e ações precipitadas. Talvez o melhor a se fazer agora é seguir as recomendações de segurança e cultivar o silêncio e a escuta profunda. Estamos sofrendo coletivamente, mas a busca por uma resposta ou saída rápida é uma forma de evitar encarar a gravidade dos acontecimentos. Sair muito rapidamente do problema é facilitar a volta do normal, e não devemos querer voltar ao que era tido como normal.

É importante honrar a dor e senti-la com todo o ser pois são as cicatrizes que guardam a força da mudança. 

Precisamos ser afetados integralmente para que cresça a intenção e a força necessária para que mudanças verdadeiras ocorram. É importante honrar a dor e senti-la com todo o ser pois são as cicatrizes que guardam a força da mudança.

Honrar este momento implica viver as perguntas que emergem em nós. Não as respostas, mas as perguntas — estas que guardam um potencial transformador. As perguntas, neste contexto, só poderão ser apreciadas genuinamente se formos afetados pelo fenômeno nus e sem armaduras. Quais são as perguntas mais profundas que emergem em você neste momento?

Ninguém gostaria de ver pessoas morrendo ou sofrendo ou mesmo tendo os seus planos pessoais atravessados. Tomamos consciência do quão pouco controlamos as nossas vidas, acordamos para a ilusão do controle e temos medo das consequências de um colapso econômico. Estamos ansiosos, com medo, impacientes e com dor emocional. Isso é a expressão de um luto coletivo. Um luto que precisa ser vivido. Um luto que precisa ser celebrado porque acelera transformações que já estavam em curso.

Quando a poeira baixar, poderemos voltar ao que era antes?

Este movimento global está reconfigurando as relações sociais. Estamos presenciando mudanças sistêmicas e o que era impossível de repente torna-se possível. Estamos vendo mudanças institucionais que antes seriam consideradas extremamente radicais. Estamos vislumbrando a nossa capacidade de cooperação e expandindo a janela de possibilidades. Quando a poeira baixar, poderemos voltar ao que era antes?

A nossa civilização estabeleceu instituições fundamentadas em uma inteligência cega. Os sistemas financeiros e de governança estão enforcados porque não são capazes de superar o paradigma da exploração absoluta e do comando e controle. A pandemia global vai funcionar como um acelerador de colapsos e nessa destruição evolutiva novos espaços terão que ser ocupados.

Além de nossa sobrevivência, o que disputamos neste momento é em que mundo viveremos e que humanos seremos depois da pandemia. O caminho acelerado das transformações podem se dar em diferentes trilhas evolutivas. Elas podem nos levar a um mundo mais vivo e humano, ou a um mundo distópico e totalitário. Temos no horizonte um não tão admirável mundo novo assim como uma ilha de Pala.

Em nome do controle sanitário estamos dispostos a abrir mão de quanta liberdade? 

Talvez um dos maiores riscos, e este é o meu maior medo, é o aprofundamento do totalitarismo e da vigilância estatal. A mentalidade da guerra, tão bem acolhida em uma pandemia onde temos um inimigo claro a combater, justifica e legitima medidas excepcionais que uma vez instauradas são muito difíceis de retrocederem. Assim, democracias suicidam-se.

Em nome do controle sanitário estamos dispostos a abrir mão de quanta liberdade? O novo coronavírus deixará de ser uma ameaça, mas a ameaça epidemiológica nunca deixará de existir. E se tem uma coisa que a mentalidade da guerra é boa em fazer é em encontrar novos inimigos que justificam os seus atropelos.

Governos com tendências totalitárias só precisam de uma boa oportunidade para avançar em seus fetiches de controle. Redes de vigilância e mecanismos antidemocráticos de governança nunca vão embora tão fácil quanto chegam. E momentos de tensão como esse é a oportunidade perfeita para que tais medidas pareçam razoáveis.

Este mundo cinza está ganhando força. Agora, mais do que nunca, precisamos exercitar a nossa imaginação, nos perguntar e se…? e sermos capazes de assumir a agência do nosso futuro.

Para abrir trilhas rumo futuros possíveis é necessário ampliar as nossas capacidades de sensemaking. 

Não tenho a ingenuidade de achar que o vírus funcionará como um despertar global onde instituições pautadas na dominação entrarão em crise existencial e se transformarão em exemplos de liderança regenerativa. Mas tenho a certeza de que os agentes de transformação serão ainda mais afetados pelo colapso civilizatório e ampliarão seus esforços para criar ilhas de sanidade em um mar de loucura.

A pandemia global deu uma amostra do que é o colapso sistêmico, e o seu efeito concentrado e agudo tornou o negacionismo uma piada. Mas ainda não nos demos conta de que a emergência climática é uma epidemia brutal onde o vírus somos nós, mas que acontece com uma dinâmica temporal muito mais lenta e, portanto, grotescamente negligenciada. A governança orientada pela mentalidade da guerra é viciada em atacar o outro, e é completamente incapaz de agir quando o problema parte de si mesma.

Há uma disputa. E a disputa se dá na geração de sentido que informará nossos caminhos adiante. Assim, para que possamos nos posicionar e abrir trilhas para futuros desejáveis é necessário ampliar as nossas capacidades de discernimento ou sensemaking.

  • Como eu posso cultivar a soberania do meu entendimento e a integridade do meu Eu?
  • Como gerar sentido em uma ecologia da informação disfuncional?
  • Qual o meu viés e qual informação eu posso estar bloqueando para manter a integridade do meu ponto de vista?
  • Quais narrativas eu não estou considerando?
  • Qual contribuição será bem vinda neste tecido complexo? 
  • O que emerge a partir da inteligência coletiva?
  • Como abrir espaço para o novo e para transformações significativas?
  • Qual outra interpretação eu posso dar a este fenômeno?
  • O que esse momento pede de mim?

Eu anseio por um novo normal. A voracidade da epidemia fez com que todo o mundo compartilhasse de um mesmo desafio ao mesmo tempo. Isso evidencia o que tradições de sabedoria milenar já perceberam há tempos: somos seres interdependentes e indissociáveis.

Ferir qualquer forma de vida é ferir a minha própria vida

O que acontece do outro lado do mundo me afeta. Cada árvore derrubada e cada vida negligenciada afeta a minha própria existência pois eu só existo quando tudo e todos também existem. Ferir qualquer forma de vida é ferir a minha própria vida. Se há algo que esse momento difícil pode nos ensinar é o quão dependente somos uns dos outros e o quanto influenciamos a existência de tudo e de todos.

Este ensinamento, que infelizmente não será interiorizado por todos, pode nos ajudar a lidar com os desafios latentes de nosso tempo. Assim, espero que a emergência epidemiológica sirva para nos ajudar a abrir os olhos para a emergência social e ecológica. O desafio nunca foi sobre como fazer, mas sim sobre como desenvolver vontade política para fazer.

A pandemia nos ajudou a perceber que é possível responder às crises globais com muito mais intensidade e velocidade do que jamais pensamos ser possível. Isso deve servir de motivação para que pessoas e grupos organizados façam com que seja impossível para governos e instituições ignorarem a crise civilizatória. O vírus por si só não trará mudanças. Mas ele trouxe uma desestabilização profunda das bases já fragilizadas do capitalismo global, o que abre uma oportunidade para intervenções nodais com efeitos sistêmicos.

Por fim, faço minhas as palavras da Eliane Brum. Penso que a beleza que ainda resta no mundo é justamente que nada está dado enquanto ainda estivermos vivos. O vírus, que arrancou todos do lugar, independentemente do pólo político, está aí para nos lembrar disso. A beleza é que, de repente, um vírus devolveu aos humanos a capacidade de imaginar um futuro onde desejam viver.

Posted by Felipe Tavares

Trabalho para conciliar o desenvolvimento social com a inteligência dos sistemas vivos. Acredito que a sustentabilidade começa com uma mudança de pensamento e não de técnicas.
  
 

5 comentários

Juliana Rage

Gratidão pela intensa reflexão! Força pra nós irmão! Recomecemos

Alexandre Vianna

Tenho lido, visto e vivenciado pequenos episódios na tentativa de transformação do ter em ser. Há esperança.

Jane Aparecida Nanett Barbosa

Infringimos as Leis do Universo/Todo/Deus (estamos destruindo o planeta) , e agora tudo o que fazemos é pedir Misericórdia. Será?! Pelas peguntas que ouço, não vejo ninguém se responsabilizando pelo que está acontecendo, somente acusando. Somos Todos Responsáveis pelo que está acontecendo, ou despertamos pela Consciência ou Despertaremos pelas Consequências. E pelo visto, a coisa ainda vai longe… se não, “Tudo voltará como dantes no quartel de Abrantes”.

Gabriel Ludovice Simões

Grato Felipe
Um texto excelente para reflectir.
Muito obrigado pela partilha do seu pensar sobre as coisas.
Sugere-me uma pergunta:
– o que podemos fazer individualmente, com efeitos sistémicos em prol Bem-Comum?
– o que é que este momento sugere a cada um fazer diariamente (práticas e/ou ações), que traga AMOROSIDADE às relações com outros seres humanos – amigos, vizinhos, colegas, pessoas ricas, desconhecidos, pobres, pessoas em situação económica difícil, sem abrigo, deficientes, idosos e crianças?

Um presente este texto. Esperança e coragem!

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