COMO TER CONVERSAS DIFÍCEIS SEM DESUMANIZAR O OUTRO?

Como ter conversas difíceis sem desumanizar o outro?

O atual cenário sociopolítico nos apresenta enormes desafios. Três deles me parecem ser centrais:

  • Sermos capazes de reconhecer nossa humanidade comum apesar das divergências;
  • Relembrar do potencial humano para mudanças disruptivas não-violentas apesar do expurgo coletivo de intolerância;
  • Expressarmo-nos e posicionarmo-nos politicamente sem que reproduzamos padrões de fala e comportamento que combinam mais com a postura da qual divergimos do que com a causa a que queremos servir.

Mais do que nunca as habilidades de diálogo estão sendo convocadas a entrarem em cena. Elas são necessárias não apenas para evitar que desastres políticos aconteçam, mas para que possamos fazer do cenário político atual uma oportunidade para a transformação pessoal a serviço da mudança social.

Achamos que estamos conversando uns com os outros quando estamos expondo nossos pontos de vistas. Mas, na maioria das vezes, estamos em um monólogo cruzado. Falamos e, quando o outro fala, não oferecemos escuta como deveria ser em um diálogo. Enquanto o outro fala, estamos no nosso monólogo pessoal articulando a nossa estratégia de defesa e, principalmente, de ataque. Consequentemente, saímos desse monólogo cruzado, a que chamamos de conversa, desvitalizados, frustrados, desmotivados. Isso quando ele não termina de forma violenta, com relacionamentos comprometidos e doses dispensáveis de raiva e violência.

Habilidades essenciais do diálogo

Algumas das habilidades essenciais do diálogo dizem respeito a nossa capacidade de 1) suspender nossa opinião e a verdade contida nela sem que isso signifique negar nossas próprias ideias; 2) expressar nossas ideias de forma a dar espaço para as ideias e verdade do outro, 3) oferecer escuta presente, ativa e profunda para o outro de modo a 4) estar curioso e demonstrar curiosidade sobre ele.

Para isso, dois movimentos são necessários. Devemos nos abrir a nós mesmos e tomar nota das nossas experiências e sentimentos em questão. Do mesmo modo, devemos ver o outro e o nosso encontro como uma possibilidade de descoberta ativando a nossa curiosidade a respeito das experiências, motivações, sentimentos e necessidades por trás da sua posição, fala e comportamento.

Se queremos sair de um cenário em que as conversas funcionam como guerras para um cenário em que diálogos são possíveis, devemos superar a linguagem do ataque e nos dispormos a incorporar a linguagem das necessidades. Afinal, “por trás de todo comportamento, existe uma necessidade” e “toda violência é uma expressão trágica de uma necessidade não atendida” (Marshall Rosenberg).

Empatizar não é o mesmo que concordar

Isso talvez possa soar como um excesso de zelo diante de expressões trágicas e perigosas de violência. Reconhecer as necessidades por trás de comportamentos de sujeitos que ameaçam direitos humanos e sociais e direitos da natureza talvez soe como omissão diante de comportamentos inadmissíveis. Não é essa a proposta. Ao contrário, oferecer empatia em um esforço de reconhecer qual a necessidade do outro não significa concordar com ela.

A consideração empática envolve desvendar as motivações por trás da posição de alguém bem como expressar nossas próprias preocupações. Mas só teremos chance de sermos ouvidos e considerados na medida em que tocamos o ponto crucial da questão, na medida em que temos um olhar sistêmico e complexo o suficiente para tocar o centro de mudança do outro, isto é, o centro que ativa a sua humanidade.

E para que sejamos capazes de fazer isso devemos ter curiosidade sobre o outro, conhecer o fundo do iceberg da sua biografia para, enfim, podermos compreender as suas motivações e comportamento, a ponta do iceberg. Só podemos intervir eficazmente na realidade que conhecemos. Só podemos solucionar os problemas que bem compreendemos. E em tempos de polarização extrema, nossa capacidade de entendimento profundo e análise sistêmica estão sufocados pelos nossos preconceitos e convicções. A pesquisa é, nesse sentido, um passo fundamental para tocarmos o ponto de mutação das pessoas.

Tão importante quanto é sermos empaticamente estratégicos nas conversas. Isto é, reconhecer que uma pessoa em um momento agressivo não será capaz de ouvir. O stress, na forma de agressão, ativa o cortisol e adrenalina, hormônios que enviam pro cérebro a mensagem “ameaça, fuja ou enfrente!” fazendo com que o sentido da audição, o sentindo empático e o sentido da compaixão sejam desativados.

O melhor que podemos fazer diante um momento verbalmente agressivo do outro é oferecer a ele tempo-espaço. Esse momento precisa ser sobre ele, para ser falado sobre o que ele sente e pensa, para criar algum nível de conexão. Assim, existe a chance de que seus ouvidos sejam destampados e você possa falar sobre você, ter escuta e a possibilidade de compreensão em um segundo momento. Se mantivermos resistência ao outro, ele será automaticamente levado a se defender e guerrear.

Conversas difíceis

Em conversas difíceis é especialmente importante escutar para compreender e não para se afirmar ou convencer o outro. Isso é particularmente difícil porque compartilhamos uma crença coletiva inconsciente de que não se afirmar é como ceder; e ceder é como morrer. Quando ouvimos algo do qual não concordamos e não expressamos automaticamente a nossa discordância, sentimos como se estivéssemos sendo aniquilados. No entanto, como dito acima, (re)conhecer não é o mesmo que concordar. E entre expressar automática e agressivamente nossa discordância e se omitir existem mil possibilidades, mil tons de cinza.

É fundamental percebermos que, na maioria das vezes, nossas discordâncias não são sobre pessoas, mas sobre ideias e/ou fatos. Isto é, sobre algo que elas disseram ou fizeram. Via de regra, esquecemos disso e, ao invés de expor que tal atitude foi preconceituosa e/ou autoritária, dizemos que as pessoas são preconceituosas e/ou autoritárias. Quando ouvimos que somos “isso” ou “aquilo” nos sentimos ameaçados e tendemos a nos defender. O rótulo do outro nos aprisiona. E faremos de tudo para provar que merecemos o “rótulo x” ao invés do “rótulo y” que nos foi imposto colocando o outro no rótulo que ele nos deu ou em um outro rótulo tão pejorativo quanto. Essa é a estratégia velha de guerra dos processos de colonização.

Naturalmente, quando questionamos o outro, ele passa a estar (porque o colocamos) em um lugar de vulnerabilidade. Isso é extremamente desconfortável porque vivemos em uma sociedade sustentada por relações de “poder sobre” em que “o seu sucesso, é o meu fracasso” e ter poder significa ser invulnerável. Por isso, quando discordamos do outro e queremos ser ouvidos, devemos cuidar para que ele possa se sentir minimamente seguro na conversa, sem a necessidade de contra-atacar, após questionarmos seus argumentos, escolhas ou comportamentos.

Quando começamos a praticar a escuta empática, caímos sempre na mesma cilada. Exercitamos uma dúzia de vezes e nos frustramos porque o outro não nos oferece empatia na mesma medida. Além disso, não raro, oferecemos tempo e espaço para o outro, muitas vezes, sentindo que estamos desperdiçando tempo e energia. Diante disso, temos a tendência a querer ensinar o outro a ser empático tentando, assim, nos sentirmos recompensados pelo nosso esforço e em uma busca, inconsciente e desesperada, de sermos ouvidos e ativar uma relação recíproca.

Empatia não ensina, se pratica

Mas, empatia não se ensina; empatia se pratica. Tentar ensinar uma pessoa a ter uma conversa empática bloqueia a empatia. O que você pode fazer, nesse contexto, é ajudar o outro a te ajudar expressando seus sentimentos e necessidades. Você pode expressar a sua frustração tomando para si a responsabilidade por ela na mesma medida que expressa que ela se relaciona com a “atitude x” da pessoa e não com a pessoa em si.

É crucial não responsabilizarmos as pessoas pelo que sentimos. Este é o ponto chave do trabalho de autotransformação e da mudança social. Aplicando somente esse princípio em nossa vida pessoal e comunitária seríamos capazes de transformar muitos conflitos em possibilidades para criar mais comunidade podendo celebrar a sua diversidade.

O desafio do nosso tempo é sermos capazes de liderar dois movimentos: um de abertura e outro de interiorização (Otto Scharmer). Devemos engajar nossa atenção e ação na nossa parcela de responsabilidade sobre os conflitos que experimentamos bem como mantermos a nossa mente, coração e vontade abertos a entender melhor o outro e o contexto mais amplo. Para além, e ao invés, de querermos mudar o outro, devemos ser capazes de ajudá-lo a se ver, a se conhecer melhor, através do nosso encontro e do nosso olhar. Para isso, é fundamental suspendermos nossos julgamentos moralizantes ao seu respeito. Apesar de uma mente sem julgamentos ser impraticável, podemos cultivar uma mente que faz juízos de valor sem condenações distribuídas involuntariamente.

Discutir comportamento: andar em círculo

Não estamos imune às emoções que podem surgir diante do comportamento alheio, como chateação, frustração, raiva, medo, tristeza etc. Mas, responsabilizar as pessoas e os seus comportamentos pelos nossos sentimentos funciona como uma violência oculta porque terceirizamos o nosso bem-estar e atribuímos ao outro responsabilidades que não são deles. A consequência é a intensificação do sentimento de impotência. Inconscientemente, estamos dizemos a nós mesmos “quando o outro mudar, eu serei feliz”.

Há, todavia, uma linha muito tênue entre a autorresponsabilidade e a falta de engajamento social. Advogando a favor da autorresponsabilidade não estou incentivando que aceitemos a violência e a ameaça à vida e aos direitos conquistados (e a conquistar). Mas, que sejamos capazes de reconhecer que eu poderia ter o mesmo comportamento do outro na medida que compartilhamos da mesma condição humana. E que buscando em mim, e no outro, a raiz desse comportamento eu tenho maiores chances de superá-lo pessoal e socialmente.

Há um princípio na psicologia budista que diz que “quando as causas e condições são propícias, um potencial emerge”. Se queremos que emerja uma cultura de paz, devemos cultivar  as causas para isso. Devemos cultivar o campo social com espaços de escuta empática e diálogo para que a transformação pessoal e a mudança social emerja. Devemos cultivar o campo social com o encorajamento ao autoconhecimento e autotransformação para que a autorresponsabilidade socialmente engajada germine.

Gandhi, na luta pela independência da Índia, sabia que combater ativamente, lê-se violentamente, os ingleses não era a mais eficaz estratégia tanto porque eles não teriam as condições materiais para isso como, principalmente,  porque isso estimularia o mesmo aspecto colonizador nos indianos que a luta preconizava superar. Combater a violência colonial com violência descolonial apresenta o risco de continuar reproduzindo, a nível de indivíduos e sociedades, o ímpeto colonizador. Além disso, Gandhi entendia que os colonizadores, e as motivações coloniais, são fruto da estrutura social em que operam. E que, cultivando o campo da estrutura social com novos valores, ela poderia se tornar a “causa e condição” para que uma nova sociedade, livre e autônoma, viesse a ser.

A sua estratégia combinou dois princípios da filosofia espiritual hinduísta: renúncia e disciplina. Ao invés do enfrentamento direto e violento, desobediência civil. Para tornar possível a sustentação de uma ética e prática não-violenta, disciplina na lida com os sentidos e sentimentos através de meditação e jejuns. Podemos, inspirados em Gandhi e na luta pela libertação não-violenta, trabalhar para renunciar à nossa violência através da renúncia de nosso hábito em desumanizar o outro e nos disciplinarmos a oferecer a ele escuta empática.

Conflito: convite para atualização

Para isso, é necessário que resgatemos a esperança e a motivação que surge quando vemos os conflitos e as crises como possibilidades de desenvolvermos resiliência criativa e de reacender o potencial humano. Os conflitos podem ser vistos como um mecanismo de retorno pro campo do relacionamento. Eles indicam que algo está desatualizado.

Conflitos só acontecem quando algo importante está em pauta, quando uma relação ou um valor é importante. Eles dissolvem relacionamentos e comprometem a saúde de sistemas porque são entendidos como uma falha. E por isso as pessoas envolvidas esquecem da importância do porquê e do que estão fazendo juntas. Quando a motivação comum é esquecida e as pessoas perdem a capacidade de fazer suas relações verem a si mesmas através delas, algo profundo e maravilhoso se vai.

Mas, se formos capazes de perceber que temos valores e necessidades comuns (saúde, paz, segurança, alegria, comunidade, pertencimento, escuta etc.), poderemos fazer viva em nós nossa humanidade compartilhada reconhecendo que tudo que todos fazem é uma tentativa, mais ou menos desajustada, de cuidar dos seus princípios e valores e satisfazer suas necessidades. Com esse pano de fundo, podemos fazer o conflito funcionar como um feedback que nos convida à atualização de nós mesmos e da qualidade de nossa interação bem como a criar mais intimidade e conexão.

Conexão, a cura para o mundo

O contrário do amor é a falta de atenção. E o contrário de não-violência é submissão ao medo. Por isso, nosso desafio é mantermos a nossa mente, coração e vontade abertos, oferecendo qualidade de escuta e atenção a quem diverge de nós. Diante dessa diferença, mesmo quando ameaçadora, somos chamados a sustentar por alguns instantes esse lugar de vulnerabilidade que nos invade para, antes de contra-atacar, compreender as fontes e causas profundas de onde nasce esse comportamento e tocar o outro nesse lugar, o ponto de alavancagem para mudança.

Só seremos capazes de realizar isso se seguirmos acreditando no potencial humano que há em nós e no outro. Algumas dicas podem ser bem vindas. Devemos nos acostumar a substituir o “eu me sinto assim porque você…”  por “eu me sinto assim porque eu…”. Com o objetivo de oferecer escuta, devemos saber que para além de estar em silêncio enquanto o outro fala, devemos nos interessar de fato por ele e pelo que é dito e demonstrar esse interesse. Conseguiremos fazer isso diminuindo o ritmo dos nossos pensamentos e fala a fim de nos dar tempo para considerar a fala da outra pessoa.

Ela se sentirá ouvida, ademais, na medida em que evitarmos educá-la ou convertê-la, fazendo, ao contrário disso, perguntas para checar quais as suas experiências, sentimentos, necessidades e motivações por trás da sua fala, sem a necessidade de apresentar respostas, desfechos ou soluções.

Dostoiévski disse “se não me entendes, desculpo-me pela minha linguagem”. A fim de evitar mal-entendidos, assuma a sua responsabilidade por se fazer compreendido. Se expresse com clareza e objetividade. Conheça os seus reais motivos para estar em uma conversa e faça-os vivos em você para evitar atitudes reativas. Compartilhe suas expectativas com o outro com tanta honestidade e elegância quanto for possível.

Antes de responder a um feedback difícil ou a uma crítica, traga sua atenção para o presente. Lembre-se que um feedback é sempre parcial e fala tanto (ou mais) sobre quem dá do que sobre quem recebe. Ouça o ponto de verdade dessa pessoa, considere sua opinião e procure maneiras de checá-la objetivamente. Após avaliar uma crítica, responda de modo que não torne as coisas piores.

Quando ofendidos, lembremo-nos das nossas opções: podemos alimentar o jogo de culpas, culpando o outro pelo que nos fez sentir e, tão logo, ele fará o mesmo. Podemos assumir a culpa que nos foi depositada, nos omitindo e tomando a parcela de responsabilidade do outro para nós mesmos. Ou podemos ser honestos e autênticos sobre o que sentimos, sem omissões, tomando para nós a nossa parcela de responsabilidade diante do conflito que emergiu, da crítica ou ofensa que recebemos, ao mesmo tempo que nos esticamos, de modo saudável, para conhecer as necessidades do outro.

Marshall Rosenberg, idealizador da comunicação não-violenta, nos aconselha a “nunca escutar o que as pessoas acham de nós, mas ao contrário, escutar o que elas estão sentindo e precisando naquele momento em que elas expressam aqueles pensamentos”. E a reconhecer que “embora essa forma trágica de expressão não seja a maneira que mais gostamos de ser escutados, ainda sim, por trás dela existe uma necessidade não atendida”.

Se pudermos nos vulnerabilizar por alguns instantes antes de contra-atacar assim como oferecer atenção e cuidado ao outro quando percebemos que ele se sente confrontado, seremos capazes de realizar no mundo a cura que ele precisa: ativar mais conexão.

Lembremo-nos: “Esta não é uma guerra entre os mocinhos e os maus, mas sobre a linha tênue entre o bem e mal que atravessa a paisagem de todo coração humano” (Joanna Macy). Incondicionalmente, nos cabe a decisão de quem somos e de quem queremos ser diante de qualquer outro e de qualquer comportamento alheio.

Como queremos enfrentá-los? Como sustentar nossas relações apesar das divergências? Como lutar pela garantia dos direitos sociais e da Terra sem reproduzir padrões coloniais? Como continuar a enxergar pessoas, corações humanos, por trás de comportamentos intolerantes e violentos? Como combater a violência sem violência?

Que essas perguntas possam habitar nossa paisagem mental e convívio social vivificando o extraordinário potencial criativo da humanidade para resilientemente resistirmos ao medo e à violência que invadem nossas mentes, corações e vontades. Por que estamos aqui? E qual futuro queremos criar, a partir do que pensamos, sentimos e fazemos, neste exato aqui e agora?

Referências

Rosenberg, Marshall. Comunicação Não-Violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. Editora Agora, 2006.

Scharmer, Otto. Teoria U: Como liderar pela percepção e realização do futuro emergente. Campus, 2007.

Algumas das ideias contidas no texto são inspirações:

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre educação e cura trabalho para a emergência de culturas regenerativas que promovam saúde pessoal e planetária.

2 comments

Expedito Nunes (Expê)

Sou membro do grupo RO no whats e integro outros mais. Atuo na minha universidade com essa abordagem. Vou ler e explorar mais os conteúdos para conhecer melhor os pressupostos.
Ficarei honrado em integrar-me à causa.

Juliana Diniz

Olá Expedito. Que bacana! A Comunicação Não Violenta e a centralidade da questão “escuta” na Teoria U são grandes referências para nós. Seguimos juntos!

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