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A era ecológica (parte 1)

A era ecológica é uma passagem necessária da humanidade na Terra

Essa sequência de três textos intitulados “A era ecológica” é inspirada pelas reflexões de Thomas Berry no livro “O sonho da Terra”. Ele é considerado um dos grandes nomes do pensamento ecológico. Exerceu os ofícios de sacerdote católico, historiador cultural, eco-teólogo e gostava de ser referido como cosmólogo e acadêmico da Terra.

A maneira como temos escolhido habitar a Terra aponta sinais de fracasso. O “dia de sobrecarga da Terra”, isto é, o dia em que consumimos mais recursos do que a Terra é capaz de suprir e regenerar em um ano, acontece cada vez mais cedo. Em 2018 este dia foi 1 de Agosto. Nas tradições andinas, em 1 de Agosto é celebrado o dia em reverência à Pachamama.

Apesar da ironia que evidencia o nosso erro de percurso enquanto humanidade, essa “coincidência” nos convida a repensar a maneira como temos habitado a Terra e a termos uma ação mais apropriada no mundo alinhada com a virada de uma sociedade de crescimento industrial para uma sociedade que sustente e promova a vida.

O maior desafio que o século 21 nos apresenta é o de sermos capazes de repensar o papel do ser humano dentro do conjunto dos sistemas vivos da Terra. Hoje somos o perigo do planeta, seu destino trágico. Apesar dessa constatação, devemos superar a paralisia que lhe acompanha e, de peito aberto, encarar a dimensão da tarefa a nossa frente. Mais do que sobrevivência física, somos chamados a trabalhar pela emergência de um novo jeito humano de ser, mais inteligente, sensível e criativo.

A era ecológica

A garantia da presença humana no planeta exige um novo período histórico. Para que continuemos a habitar e prosperar na Terra é inevitável inaugurarmos uma nova era, a era ecológica.

Ecologia, tal como se apresenta no nome desta nova era, tanto diz respeito à relação de um organismo com seu ambiente como, e principalmente, à interdependência de todos os sistemas vivos e não vivos que existem na Terra. A era ecológica é marcada, nesse sentido, pela superação do nosso isolamento enquanto nações e enquanto espécie a fim de que integremos a comunidade de vida terrestre. A adesão a essa comunidade maior nos dará um novo sentido de realidade e novos valores.

Nós, humanos, temos amplos poderes sobre o destino do planeta uma vez que o processo da Terra que antes administrava o planeta está agora cumprindo essa tarefa através de nós, como seu agente consciente. Fazemos isso através de conhecimentos e tecnologias que podem não apenas interferir, mas decidir pela saúde ou doença do metabolismo planetário. Essa mudança é muito maior do que qualquer outra experimentada pela humanidade.

Portanto, não podemos resolver nossos problemas nos antigos moldes humanos assim como problemas de física quântica não se resolvem com adequações da física newtoniana. O olhar restrito pautado no autocentramento, antropocentrismo e competitividade deve passar por um alargamento de modo que possamos ver a realidade de uma maneira mais ampla, contextual e altruísta. O que é considerado bom na realidade micro, concreta e objetiva pode ser mortífero na realidade macro, contextual e subjetiva.

A primeira mudança fundamental da era ecológica é, portanto, uma mudança de escala na consciência humana. Devemos deixar de nos ver e ver aos nossos interesses na escala de indivíduos e comunidades para compreender quem nós somos e qual papel nos é esperado na escala do planeta e do cosmos.

Iniciação para a fase adulta da humanidade

Ser humano hoje é como ser um músico tentando ouvir uma melodia. Muitos músicos antes de compor uma melodia podem ouvi-la em uma dimensão mais sensível de seu ser. O seu trabalho é dar forma na matéria para aquilo que ressoa fortemente em sua alma. Esse também é o nosso trabalho. Podemos ouvir as notas de uma nova era, da era ecológica, tocando em nossas mentes e corações. Devemos confiar no que ouvimos e, com nossas mentes, corações e mãos, dar forma a ela.

A era ecológica é um processo iniciático para a fase adulta da humanidade. Ou seja, um convite irrecusável para nós assumirmos novas responsabilidades na condução do destino da Terra alinhado com as forças misteriosas da vida. Todavia, como se pode ver, essa responsabilidade é maior do que nossa capacidade de usá-la com sabedoria. Cometemos erros juvenis e somos tomados por uma enorme confusão própria da nossa juventude.

Na medida em que caminhamos para nos tornarmos adultos conscientes, reconhecemos o primado do mundo natural e seu funcionamento espontâneo. Reconhecemos que assim como há deliberação, há também espontaneidade. Ou seja, reconhecemos que assim como nos foi dada a possibilidade de usufruir de uma consciência auto-reflexiva, também nos foi dada a responsabilidade de fazer dessa consciência um meio de expressão dos processos auto-criativos e espontâneos da vida.

De fato, a era tecnológica nos proporcionou inúmeros avanços. Através das novas ciências e das técnicas modernas foi possível a eliminação de muitas misérias, o aumento da expectativa de vida e novas projeções para o futuro da humanidade. Todavia, isso se deu a custo da extinção de sentidos básicos ao homem, da perda do contato com as forças naturais e da contração da vida subjetiva.

Diante disso, é importante nos questionarmos: estamos realmente caminhando para um paraíso tecnológico de forma que vale a pena destruir o mundo natural? Enquanto as infra-estruturas naturais, isto é, próprias do metabolismo da Terra são sempre renováveis; as infra-estruturas humanas prosperam na mesma medida em que esgotam recursos e energias.

“Temos a tendência a exaltar o lado luminoso da indústria mais que o lado escuro da natureza ou, ao contrário, dar mais ênfase ao lado brilhante da natureza que ao lado escuro da indústria. Na realidade, é fundamental comparar claridade com claridade e escuridão com escuridão” (Berry, 1991, p. 65).

A era ecológica, ao mesmo tempo oposta e complementar a era tecnológica, nos leva de volta ao contato com os processos orientadores do universo que existem há 14 bilhões de anos. Antes compreendidos intuitivamente, agora eles podem ser compreendidos cientificamente. Quais princípios são esses? Thomas Berry, historiador cultural, eco-teólogo e cosmólogo, apresenta-nos uma descrição.

Os princípios orientadores do universo

A diferenciação é o primeiro princípio orientador que se manifesta no cosmos. Ele pode ser visto na infinita variedade de expressões da vida. O cosmos e a vida são processos emergentes cuja causa ainda não somos capazes de compreender e cuja evolução se dá de forma ilimitada e super-diversa. Desde o Big Bang, galáxias, estrelas, planetas, minerais, plantas, animais e seres humanos trazem consigo a marca da diversidade.

A subjetividade é outro princípio orientador do cosmos. Tudo que existe traz consigo alguma espécie de consciência, agência e intencionalidade. Na medida em que se tem a complexificação orgânica há o consequente aumento da subjetividade, isto é, uma maior interiorização psíquica. Isso faz com que o planeta, em atitude humilde e confiante diante às suas manifestações, esteja sujeito à livre interação de forças auto-determinantes, ou seja, à ação motivada pela subjetividade dos seres que lhes pertencem.

O processo de subjetivação pode ser visto, por exemplo, na evolução biológica do ser humano. Na medida em que o homo sapiens desenvolveu novas ordens de complexidade orgânica do sistema nervoso, experimentou, simultaneamente, revoluções cognitivas, o aprimoramento da comunicação e a sofisticação da consciência auto-reflexiva.

O processo de subjetivação presente no cosmos provoca a sociedade ocidental a superar a sua arrogância antropocêntrica em acreditar apenas os seres humanos têm alma, subjetividade e intencionalidade. O que esse princípio retrata é que toda a realidade pressupõe subjetividade. E, portanto, o que nós chamamos de natureza não é algo frio, sem alma, sem razão. Os povos indígenas, em contrapartida, apreendem o mundo através de uma lente que reconhece e honra esse princípio.

“Em muitas regiões do planeta, não é concebível que humanos e não-humanos desenvolvam-se em mundos incomunicáveis e de acordo com princípios separados; o meio ambiente não é objetivado como uma esfera autônoma: plantas e animais, rios e penhascos, meteoros e estações, não existem no mesmo nicho ontológico definido por sua falta de humanidade” (Descola, 2012, tradução livre).

A comunhão é o terceiro princípio orientador do cosmos. Ela diz respeito ao aninhamento das realidades. Somos indivíduos, dentro de nossas comunidades, dentro de nossas cidades, dentro de nossos estados, dentro de nossos países, dentro de nossos continentes, dentro no planeta. Ou ainda, somos seres vivos, dentro de paisagens, dentro de ecossistemas, dentro da ecologia planetária. Cada uma dessas escalas de sistemas estabelece entre si uma relação de pertencimento mútuo e reciprocidade. Uma só pode acontecer na dependência da outra.

Uma das mais bonitas expressões do princípio da comunhão que faz, por sua vez, que todos estes sistemas permaneçam em aninhamento é a atração gravitacional. Essa força amorosa nos oferece um terreno seguro para nos ancorar, onde podemos nos realizar. A atração gravitacional na esfera humana se manifesta como atração afetiva. Ela nos leva a incorporar o papel de ser um terreno seguro para a manifestação e realização uns dos outros e para estabelecermos relacionamentos trans-escalas.

Estes são princípios do universo e, consequentemente, de tudo que se manifesta nele: o planeta Terra, a vida e a consciência humana. A era ecológica se torna real na medida em que integramos pessoalmente e socialmente estes princípios. Eles são importantes porque nos permitem acessar conscientemente a presença do sagrado que nos leva, em consequência, a uma profunda admiração e reverência a toda forma de expressão da vida.

Referências

Berry, Thomas. O sonho da Terra. Petrópolis: Vozes, 1991.

Descola, Philippe. Más allá de la naturaleza y la cultura. Madrid: Amorrortu, 2012.

Postado por Juliana Diniz

Por meio da união entre educação e cura trabalho para a emergência de culturas regenerativas que promovam saúde pessoal e planetária.

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