Descolonizar a comunicação

E se em vez de usar “mas”, “na verdade”, “efetivamente” e outras expressões que reivindicam para si a legitimidade, a gente usar “e”, “além disso”, “também” e outras expressões que, em vez de criar oposição, somam perspectivas?

O uso das expressões “de fato” e “realmente” quando afirmamos algo e do “não é bem assim” ou “na realidade” quando estamos nos contrapondo nascem da premissa de que só um pode estar correto e, portanto, só um tem o acesso à verdade e a legitimidade na exposição de seus argumentos.

Quando escutamos o que o outro tem a dizer ativa e profundamente e ao final da sua fala queremos expor uma perspectiva que se difere da dele, podemos começar por: “te ouvindo, me surge que”, “além do que você trouxe, eu penso que” ou “em um sentido diferente do que você expôs, eu entendo que”. 

Assim, está implícita a ideia de que diferenças não precisam ser antagonizadas e que diferentes perspectivas podem, mesmo divergindo em sentido, revelar faces de uma realidade mais ampla.

Uma vez eu ouvi uma história. Vou trazê-la muito sucintamente e me desculpo por não ter informações precisas sobre a etnia e o contexto mais amplo.

Em uma aldeia no interior do Brasil, uma mulher ocidental advertiu as mulheres indígenas a ferver a água para as crianças não terem diarreia. Uma mulher indígena respondeu à mulher ocidental “aqui as crianças não têm diarreia ao ingerir a água do rio”. A mulher ocidental disse “a água do rio dá diarreia, você tem de ferver a água”. A mulher indígena respondeu “aqui as crianças têm diarreia quando tomam água fervida”.

A mulher ocidental reivindica para si o monopólio da verdade a partir da premissa de que há uma única verdade funcionando universalmente. A mulher indígena implicitamente expressa que o que vale na cidade não se aplica na aldeia sem desvalidar a verdade da mulher ocidental. A mulher indígena traz a sua perspectiva a partir do seu contexto ao usar o “aqui” sem fazer guerra e sem pretender a universalidade da sua verdade.

Tomar como certo que a nossa experiência é restrita e, portanto, as nossas perspectivas são limitadas e usar “a partir do meu contexto/experiência, eu vejo que” para expor divergências é uma boa maneira de começar a descolonizar a comunicação.

Ao trabalhar com projetos de base territorial e comunitária, e mesmo ao facilitar grupos e equipes, precisamos nos engajar em um trabalho de descolonização do próprio imaginário e comportamento. É tempo de pararmos de desperdiçar a preciosidade das experiências superdiversas de tantos outros e fomentar uma ecologia de saberes que celebra a alteridade.

Não é só sobre criar espaço para que o diferente seja e se expresse, mas sobre energizar o potencial revelado por cosmovisões e hábitos de existência que provocam os nossos próprios. E, por isso, nos apresentam modos de ser e estar no mundo desconhecidos e, tão logo, potencialmente transformadores.

Imagem: Oswaldo Guyasamin

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre desenvolvimento humano e a perspectiva evolucionária da Terra facilito processos de inovação social e mudança sistêmica que promovam saúde pessoal e planetária.
  
 
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