Compartilhar perguntas e causalidade mútua

Quando questionada sobre como devemos nos posicionar no mundo e o que devemos fazer de útil, Joanna Macy disse:

“Eu não sei o que você deve fazer, divida essa questão com um grupo de pessoas.”

Para ela, o que deve ser feito precisa, antes, ser desenhado junto com uma comunidade. Afinal, este é o ‘nosso’ mundo e não apenas o ‘meu’ mundo.

Na sequência, quando questionada sobre como mudar o mundo, ela responde:

“Não queira mudar o mundo, faça algo que você ame.”

Para amar a vida é suficiente fazer algo em grupo como demonstração do nosso amor em simplesmente poder participar dessa grande aventura cósmica, planetária e humana.

De fato, não há nada tão poderoso quanto compartilhar questionamentos, dores e alegrias. Quando compartilhadas, as nossas perguntas, tanto quanto as nossas tristezas e bênçãos, nos conectam. E a partir dessa conexão podemos buscar as mais verdadeiras e inteligentes maneiras de expressar o nosso amor ao mundo como forma de superar os medos e as dúvidas individuais.

Ao viver as perguntas juntos e compor círculos ‘desinteressados’ de partilha temos a oportunidade de ampliar capacidades próprias da nossa humanidade que, a menos que sejam incentivadas, vão seguir subutilizadas. 

Oferecer presença, escuta e acolhida é uma maneira de nos tornarmos mais humanos a cada momento. Esse é o container que permite às pessoas ao nosso lado expressar o que elas vêem e sentem sobre si e sobre o mundo que lhe chega à percepção. Isso é sobre as pessoas escutarem a própria voz. 

O poder de uma prática tão singela quanto poderosa como essa está tanto na humanização das nossas relações quanto na reativação de um princípio de funcionamento da vida — os ciclos de retroalimentação.

Os loopings de feedback, a capacidade de resposta informada pelo meio, os reajustes espontâneos em resposta aos estímulos recebidos… são leis da vida. A vida funciona através de fluxos complexos de causalidade mútua.

Então, se queremos incorporar a inteligência da vida nos desenhos humanos — na forma como nos relacionamos — é preciso ouvir a nós mesmos e fazer a vida ouvir a si mesma. 

Nós somos seres relacionais aninhados em sistemas dentro de sistemas. Portanto, o que vemos e sentimos compõe a totalidade da percepção dos sistemas maiores dos quais fazemos parte. O que parece tão ‘meu’ não se restringe à nossa individualidade.

Ouvir a nós mesmos é uma prática que fortalece o músculo da auto-percepção consciente ou autoconsciência. Além disso, ver a nós mesmos como participantes de um todo que nos transcende — e assumir que o que percebemos e sentimos compõe a percepção deste todo dele mesmo — o ajuda a responder inteligentemente ao que lhe acontece.

Isso fortalece os ciclos de feedback que permitem os sistemas e campos que nos envolvem a verem a si mesmos e, tão logo, avançarem em direção um cenário evolutivo que só é capaz de ser percebido devido à revelação da totalidade através dos sentidos — aparentemente subjetivos — de cada um de nós.

O que você vê e sente importa muito na atualização das comunidades, da micro à macro escala, das quais você participa.

As perguntas, os medos e as bênçãos que estão com você agora são preciosos demais para não serem compartilhados.

Foto: Nathan Anderson

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre desenvolvimento humano e a perspectiva evolucionária da Terra facilito processos de inovação social e mudança sistêmica que promovam saúde pessoal e planetária.
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