A dança da floresta

E o que podemos aprender enquanto humanos e humanidade

A floresta revela uma inteligência bela e sutil. É um sistema de alta sinergia onde o interesse particular de uma espécie está em harmonia e contribui para a evolução da floresta como um todo. É uma dança harmoniosa de revelar-se e de criar condições para que outros seres também possam se revelar.

Temos na floresta, de forma simplificada, a cada momento do seu estágio de evolução, plantas com duas essências particulares: aquelas que criam e aquelas que são criadas. As árvores nunca ocorrem de forma isolada. Elas só existem pois estão em um relacionamento simbiótico profundo com outras plantas e animais.

Assim, observamos um padrão onde determinadas espécies criam as condições para que outras espécies possam prosperar. Ou seja, espécies criadoras suportam condições adversas e contribuem para a melhoria do ambiente de forma que espécies mais exigentes, as criadas, possam revelar o seu potencial. É a vida criando condições propícias para a vida em um maior nível de organização e complexidade. É a evolução dirigida por relações sinérgicas.

Em uma mata em estágio inicial de recuperação, por exemplo, as espécies mais abundantes são rústicas — adaptadas a condições de pouca fertilidade e muito sol. Podemos chamá-las de pioneiras já que aparecem primeiro no ciclo evolutivo. Se pensarmos isso faz sentido pois só espécies pouco exigentes e muito resilientes seriam capazes de prosperar em uma paisagem tão dura. E só assim, adaptadas a condições difíceis, seriam capazes de cumprir o seu papel de melhorar as condições do local que habitam para que outras formas de vida possam também existir.

Após vários ciclos de crescimento e morte, as pioneiras começam a modificar a paisagem. Onde era sol pleno passa a ter mais sombra. Onde havia um solo duro e exposto passa a ter um solo parcialmente coberto e com o primeiro acúmulo de matéria orgânica. A qualidade e a quantidade de vida consolidada no sistema aumenta. Um maior nível de ordem e complexidade foi alcançado.

Assim, espécies mais exigentes que antes não conseguiam prosperar em um ambiente pobre podem, à sombra e ao berço de uma pioneira, apresentar pleno crescimento. O ambiente começa a convidar novas formas de vida, pois este ambiente já não é mais o mesmo.

À medida que esse dinamismo evolutivo ocorre, as espécies pioneiras começam a sair de cena e abrir espaço para o novo. Este grupo de espécies já exerceu sua influência na paisagem e agora deixam que outros seres exerçam protagonismo. E isso é lindo.

Essa espiral evolutiva acontece em diferentes níveis. Espécies exercem o seu papel a partir da sua essência e contribuem para a realização do potencial singular de outras espécies. Assim, aumentam as relações sinérgicas do sistema e contribuem para a evolução da floresta como um todo.

A floresta, por sua vez, ocupa um lugar singular em um ecossistema maior que é composto por paisagens diversas. A floresta desempenha um papel na trajetória evolutiva deste grande ecossistema. E as relações entre as espécies contribuem para a evolução da floresta. Percebeu o fractal? É um sistema aninhado onde o sistema menor contribui diretamente para a evolução do sistema maior de que faz parte.

Tais observações sobre como os sistemas vivos funcionam são cruciais para pensarmos um futuro viável e belo. Na dança cósmica, temos os seres humanos herdando a consciência auto-reflexiva de um processo evolucionário que é muito maior do que a si mesmos.

A consciência auto-reflexiva nos permite observar e refletir sobre os padrões inerentes à vida e criar mais condições à vida do que seria possível sem a sua presença. É uma grande habilidade que chega carregada de uma boa dose de responsabilidade. Ao desenvolvermos forças ecológicas desproporcionais e sermos capazes de nos colocar conscientemente na dança evolucionária, somos imbuídos de responsabilidade para com o todo.

A sociedade também é um sistema aninhado onde pessoas estão inseridas em pequenas comunidades que estão inseridas em comunidades maiores que estão inseridas em contextos ainda maiores. Podemos escolher ser criadores das condições necessárias para que a nossa melhor visão possa se realizar. Podemos, hoje, escolher dar olhos e ouvidos à inteligência da vida e conduzirmos os nossos projetos como catalisadores para a evolução local. Podemos ser criadores de condições propícias à vida onde o novo pode revelar-se. Podemos criar atratores que conduzam o sistema a uma trilha evolutiva harmoniosa com as mais belas qualidades humanas.

A consciência auto-reflexiva e a cosmologia moderna ocidental nos prega uma grande peça: a de que somos seres separados do todo. Podemos resgatar a nossa essência inter-relacional e traçar objetivos pessoais e organizacionais que sejam ao mesmo tempo sinônimo de prosperidade para o todo.

Podemos agir como se — olha que interessante — fôssemos natureza. E no processo descobrir que nunca deixamos de ser.

Posted by Felipe Tavares

Trabalho para conciliar o desenvolvimento social com a inteligência dos sistemas vivos. Acredito que a sustentabilidade começa com uma mudança de pensamento e não de técnicas.
  
 

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