Um novo mundo, uma outra visão de mundo e um diferente jeito de aprender

O mundo já não é o mesmo. Tampouco nossa capacidade de assimilar os fenômenos e elaborar nossos conteúdos psíquicos funciona da maneira como se convencionou acreditar funcionar.

O excesso de estímulo neurossensorial, a inserção indiscriminada de tecnologia na vida cotidiana, o hiperindividualismo, a desconexão da natureza, o eco-trauma instalado em nossos corpos e mentes em decorrência dos crimes socioambientais, a supremacia de uma visão de mundo ocidental, colonial, patriarcal, racista… pressionam a emergência de novas capacidades humanas de metabolização dos fatos, perspectivas, sentimentos.

No entanto, nossos hábitos de percepção e elaboração do mundo fenomênico refletem um paradigma de interação e aprendizado obsoleto. A despeito dos marcadores da contemporaneidade na nossa vida pessoal e social, nós ainda acreditamos em um jeito moderno de relacionar e aprender.

Desconsideramos o aceleramento das mudanças e a caotização do mundo, a volatilidade das decisões tomadas e dos fatos consumados, e a complexidade, ambiguidade e incerteza inerente a todos os fenômenos da vida social. Os hábitos mentais de previsão, controle, domínio, especificação, fragmentação, quantificação parecem ainda reger a maneira como fazemos sentido do mundo — externo e interno.

Exemplo disso é ainda esperarmos transformação interior de práticas isoladas, redesenho social e econômico de intervenções pontuais, aprendizado aprofundado de workshops e livros, autoridade conceitual e empírica de experiências breves etc.

Aquilo que transcende os hábitos modernos de ser e estar no mundo e nos faz descobrir novas formas de nos relacionar com o que é da ordem do humano, da sociedade e da vida não é apreensível através de teorias, práticas e intervenções específicas e desarticuladas.

Para um novo mundo, uma nova visão de mundo

Este momento histórico nos convoca a refletir sobre a visão de mundo que informa a maneira como nos posicionamos nas situações cotidianas e como, enquanto coletividade, conduzimos as operações que fazem o mundo continuar a girar. As limitações da visão de mundo dominante são evidentes e antigas premissas enredadas em um inconsciente e não-examinado sistema de crença estão sendo destronadas.

Já não queremos acreditar na falácia liberalista que apologiza o capitalismo exploratório como único manejo possível da suposta natureza gananciosa do ser humano. Já não queremos cair no individualismo preguiçoso que diz que crescimento pessoal e ação individual é suficiente para resolver nossos problemas ou que podemos esperar pelo colapso natural das estruturas convencionais. Já não queremos terceirizar a culpa das coisas serem como são às categorias genéricas de políticos, governos, executivos e empresas. Sabemos que há indivíduos, diretrizes e premissas particulares que devem ser estudadas profundamente para serem enfrentadas adequadamente.

Ainda sim mudar uma visão de mundo não é algo simples porque para tanto precisamos não só ver através de uma visão de mundo diferente, mas pensar, significar e valorar os fenômenos além de visões de mundo particulares ou através de múltiplas visões de mundo. E nós estamos pouquíssimo habituados a perceber que a todo momento nós estamos vendo a mundo a partir de vieses característicos de uma visão de mundo que aderimos por força da conformidade, da preguiça e do medo.

Se quisermos ter autonomia sobre a visão de mundo que informa o que é importante e desejável para nós, enquanto indivíduos e sujeitos sociais, precisamos desenvolver a habilidade de tirar, colocar e associar diferentes lentes. E essa habilidade não surge ao se familiarizar com um sistema de valores restritivo, dominar uma teoria particular ou se instrumentalizar com um ferramental específico.

Para uma nova visão de mundo, um novo jeito de aprender

É o aprendizado teórico-conceitual multidisciplinar, a ampliação de capacidades cognitivas-perceptivas subutilizadas, o cultivo de valores e virtudes informado por diferentes tradições de sabedoria, a convivência com sujeitos, posições e iniciativas plurais, o desenvolvimento de coerência, integridade e autoridade experimentados no alinhamento do ser com o fazer etc. que nos levará à condição de suspender uma visão de mundo obsoleta — embora dominante — e energizar visões de mundo mais capazes de endereçar saída aos desafios do atual contexto planetário.

Para essas capacidades serem desenvolvidas, valores, condições e estruturas outras que não os da modernidade precisam orientar o processo de aprendizagem. Precisamos de uma combinação orgânica, uma associação divertida e interpenetração prazerosa do pensar, sentir e agir e de rotina, ritmo e ritual.

Se na modernidade o aprendizado acontecia em um ambiente disciplinador, sob tensão e pressão, desconectado do contexto, com tempo genérico e pré-determinado, com conteúdos fragmentados, com a supremacia do pensar sobre o sentir e o querer e a serviço da massificação dos sujeitos… 

Hoje aprender parece fazer muito mais sentido em uma comunidade vibrante onde o aprendizado é livre, contínuo, consistente, desacelerado, reflexivo, dialógico, enraizado em contextos e territórios singulares, com conteúdos articulados e perspectivas integradas, com a reunião das diferentes capacidades humanas e a serviço da individuação saudável de cada pessoa.

Um novo jeito de aprender que nos permite o posicionamento consciente frente às visões de mundo em disputa implica desbancar a restrição autoritária, a superficialidade preguiçosa, a certeza ingênua, a ordem ignorante e a repetição mecânica que enrijecem e desvitalizam o ser para incentivar a abertura curiosa, o encanto e o assombro, a participação deliberada e a experimentação autêntica e responsável.

É a presença dessas qualidades em uma comunidade de aprendizagem que nos ajudará a navegar a complexidade da realidade reconhecendo sua natureza interdependente e o emaranhamento inevitavelmente desafiador de todos os fenômenos da vida. Elas nos ajudarão a estar de prontidão para encarar a montanha de sofrimento do mundo sem a fantasia de que ele pode consertado por atos heroicos e soluções tecnológicas e, mesmo assim e por isso mesmo, observar amplamente, sentir compassivamente e participar apropriadamente dos enredos biográficos, comunitários e globais nos quais estamos envolvidos.

Foto: Nick Abrams

Posted by Juliana Diniz

Por meio da união entre desenvolvimento humano e a perspectiva evolucionária da Terra facilito processos de inovação social e mudança sistêmica que promovam saúde pessoal e planetária.
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